Cecília Meireles completaria 125 anos neste sábado, 7 de novembro de 2026. Nascida no Rio de Janeiro em 1901, ela foi uma das grandes poetas da língua portuguesa e trabalhou como professora, jornalista e tradutora.
Entre seus livros mais conhecidos estão “Romanceiro da Inconfidência”, que conta em versos a história da Inconfidência Mineira, “Ou Isto ou Aquilo”, voltado ao público infantil, e “Viagem”, que reúne poemas como “Motivo” e “Retrato”.
É em “Retrato”, inclusive, que Cecília traz uma de suas reflexões mais marcantes: a passagem do tempo a partir do estranhamento de quem se olha no espelho e já não reconhece o rosto de antes.
“Retrato” faz parte de “Viagem”, livro premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1938 e publicado no ano seguinte.
Ao longo do poema, a voz que fala percebe mudanças no rosto, nas mãos e até no jeito de mostrar o que sente. A última estrofe termina com uma pergunta:
“Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?”Veja + após o anúncio
A mudança aconteceu aos poucos, mas só parece ficar evidente diante do espelho. A pergunta final dá a impressão de que o rosto de antes ficou para trás, em algum lugar.
Décadas depois de publicar o poema, no entanto, Cecília falou em uma entrevista sobre algo da infância que ainda reconhecia em si: seu jeito de olhar o mundo.
Em maio de 1964, aos 62 anos, Cecília contou a Pedro Bloch, em entrevista à revista Manchete, que, quando pequena, se encantava com as cores de um tapete persa e imaginava florestas nos veios da madeira.
“Olhando para trás me sinto uma criança extremamente poética”, disse a escritora.
Em “Retrato”, portanto, o rosto de antes da escritora até podia ter ficado para trás. Mas, ao lembrar da infância, Cecília ainda se reconhecia na curiosidade com que olhava o mundo desde pequena.