Neste sábado (29), Michael Jackson, o Rei do Pop, completaria 67 anos se estivesse vivo. Entre os muitos capítulos marcantes de sua trajetória, um episódio envolvendo Paul McCartney continua chamando atenção: a compra do catálogo de músicas dos Beatles por US$ 47,5 milhões, em 1985, aproximadamente R$ 246,5 milhões na cotação de hoje, negócio que teria provocado o rompimento da amizade entre os dois artistas.
Segundo informações publicadas pela ABC News, Michael Jackson e Paul McCartney se conheceram na década de 1970 e, naquele período, estavam entre os artistas mais famosos do mundo. Os dois se tornaram amigos e chegaram a trabalhar juntos em sucessos como "Say Say Say" e "The Girl Is Mine".
A parceria fazia sentido também pelas afinidades pessoais. O ex-editor-chefe das revistas Vibe e Spin, Alan Light, contou à ABC News que os dois compartilhavam o gosto pela música pop, pelos antigos filmes de Hollywood, pelos primeiros discos de rock e até por desenhos animados.
A relação, porém, começou a azedar em 1985, quando Michael Jackson entrou em uma disputa pela compra dos direitos do catálogo de músicas dos Beatles. O cantor venceu a concorrência e desembolsou US$ 47,5 milhões, aproximadamente R$ 246,5 milhões na cotação de hoje, pela coleção, que reunia mais de 200 canções, incluindo clássicos como "Yesterday" e "Let It Be".
A origem da história ganhou um detalhe curioso. De acordo com o repórter de música do New York Times, Ben Sisario, ouvido pela ABC News, existe um relato segundo o qual Paul McCartney teria mostrado a Jackson, durante um jantar, que uma das maneiras de ganhar dinheiro no mercado musical era investir em direitos de publicação.
O interesse do Rei do Pop pelos catálogos teria crescido a partir daí. Segundo reportagem do Los Angeles Times, assinada por Robert Hilburn, Jackson posteriormente disse ao advogado John Branca:
"Quero comprar alguns direitos autorais, como Paul."
Nos meses seguintes, o cantor passou a adquirir diferentes coleções de músicas. Entre elas estavam trabalhos de Sly Stone, além de canções de Len Barry, Soul Survivors e dois sucessos de Dion. Essas primeiras compras custaram menos de US$ 1 milhão, aproximadamente R$ 5,2 milhões na cotação de hoje. Mas Jackson queria algo maior.
O interesse ficou evidente quando seu advogado revelou que o catálogo da ATV Music estava à venda. A coleção incluía a Northern Songs, empresa criada pelos Beatles na década de 1960 e que reunia os direitos de publicação de suas músicas.
Segundo o relato publicado pelo Los Angeles Times, quando John Branca contou a Jackson que o catálogo incluía os Beatles, o cantor teria ficado extremamente empolgado e respondido:
"Eu não me importo. Eu quero. Por favor."
A negociação durou cerca de dez meses e foi bastante complicada. Jackson chegou a fazer uma oferta inicial de US$ 46 milhões, aproximadamente R$ 238,7 milhões na cotação de hoje, mas precisou aumentar o valor em mais US$ 1,5 milhão, cerca de R$ 7,8 milhões. O contrato acabou sendo assinado às 2h45 da manhã de 10 de agosto de 1985.
O pacote adquirido não reunia apenas músicas. A negociação também envolveu prédios, um estúdio de gravação, equipamentos e até uma apólice de seguro relacionada a Paul McCartney.
Com a aquisição, Michael Jackson passou a controlar os direitos de publicação das músicas dos Beatles que estavam no catálogo. Segundo a ABC News, Paul McCartney ficou furioso e os dois teriam passado anos sem se falar.
Em 2006, McCartney resumiu o desconforto ao comentar que precisava pagar para cantar algumas das próprias músicas durante suas turnês.
"Você sabe o que não parece muito bom? É sair em turnê e pagar para cantar todas as minhas músicas. Toda vez que canto 'Hey Jude', tenho que pagar a alguém."
A situação era especialmente delicada porque McCartney e o espólio de John Lennon, como compositores, continuavam recebendo parte dos rendimentos das músicas. O editor ficava com outra parcela e normalmente controlava utilizações das canções em filmes, comerciais e produções teatrais.
Apesar da crise pessoal com McCartney, especialistas ouvidos pela ABC News consideraram a compra um dos grandes movimentos empresariais da história da música.
Ben Sisario classificou o investimento de Jackson no catálogo dos Beatles como uma jogada empresarial extremamente inteligente. Segundo a avaliação apresentada pela publicação, o investimento de aproximadamente US$ 50 milhões, cerca de R$ 259,5 milhões na cotação de hoje, teria se transformado posteriormente em um ativo avaliado em mais de US$ 1 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 5,2 bilhões.
A compra fazia sentido diante da admiração que o Rei do Pop tinha pela banda. Segundo o Los Angeles Times, Jackson gostava especialmente das melodias compostas por Paul McCartney, como "Yesterday" e "Eleanor Rigby". Em determinado momento, quando questionado sobre suas músicas favoritas dos Beatles, o cantor começou a citar várias faixas e acabou percebendo que sua lista já tinha ultrapassado cinco músicas.
Ele então brincou:
"Posso fazer com que sejam minhas 10 favoritas?"
Em reportagem publicada pela Rolling Stone Brasil em dezembro de 2025, outra declaração de Jackson sobre os Beatles também foi destacada. Para o Rei do Pop, algumas melodias eram tão bem construídas que poderiam funcionar mesmo sem as letras.
Ao falar sobre "Here Comes the Sun" e "Fool on the Hill", Jackson afirmou:
"Eu acho que as melodias são sempre o mais importante, especialmente em algumas das músicas antigas dos Beatles. Acho as melodias lindas. Sabe, é isso que eu acho que faz com que eles permaneçam relevantes por tanto tempo. Se você simplesmente cantarolar 'Here Comes the Sun' ou 'The Fool on the Hill'... quero dizer, a melodia é tão bonita que você não precisa... A letra também é linda, mas você realmente nem precisaria disso."
A história também levanta uma pergunta curiosa: se Paul McCartney estava interessado no catálogo, por que não conseguiu comprá-lo? Segundo o Los Angeles Times, McCartney teria feito ofertas à ATV ao longo dos anos, mas não era considerado um dos principais concorrentes naquele momento.
Uma das possibilidades apontadas por pessoas próximas às negociações era que o músico estivesse interessado principalmente nas próprias composições, enquanto a aquisição da ATV envolvia milhares de direitos autorais diferentes. A parte dos Beatles, sozinha, era estimada por uma fonte como responsável por aproximadamente dois terços do valor da compra.