Demonstrar emoções, para muitas pessoas, não é algo natural, é quase um território proibido. Há quem passe anos sem conseguir acessar o próprio choro, como relatou uma psicóloga ao contar a história de uma cliente que permaneceu seis sessões inteiras sem derramar uma lágrima.
Ela respondia a tudo com atenção, controle e racionalidade. Só na sétima sessão permitiu-se chorar, e, ainda assim, pediu desculpas. Foi nesse instante que a especialista percebeu: aquela mulher passou cerca de trinta anos sem se sentir autorizada a sentir.
Esse tipo de bloqueio emocional é mais comum do que se imagina. No 'BBB 26', por exemplo, a participante Milena já deixou claro seu desconforto com demonstrações de afeto, como dar ou receber abraços.
Em muitos momentos, ela recorre ao deboche ou ao cinismo, mecanismos que podem funcionar como uma espécie de armadura emocional. Não se trata de frieza, mas de proteção.
A psicologia ajuda a entender esse comportamento. O trabalho do pesquisador James Gross, da Universidade de Stanford, diferencia dois caminhos principais de regulação emocional: a supressão expressiva e a reavaliação cognitiva.
A primeira acontece quando a pessoa sente a emoção, mas não deixa transparecer no rosto, na voz ou nos gestos. Já a reavaliação cognitiva envolve reinterpretar a situação, alterando a intensidade da emoção desde a origem.
Embora muitos optem pela reavaliação, há um grupo significativo que vive na supressão constante. E isso tem um custo alto.
Estudos mostram que pessoas que reprimem suas emoções continuam experimentando internamente todo o impacto fisiológico, aumento da frequência cardíaca, tensão muscular, desgaste mental. Ou seja, o corpo sente tudo, mesmo quando o mundo não vê nada.
E há um efeito ainda mais silencioso: o impacto social. Pesquisas indicam que a supressão emocional está associada a relações menos profundas, menor sensação de proximidade e níveis mais altos de solidão.
Ou seja, parece mais controlado por fora muitas vezes é quem mais se sente sozinho por dentro. Isso acontece porque a estratégia de autoproteção também impede a conexão genuína com os outros.
Muitas dessas pessoas aprenderam, ainda na infância, que expressar emoções era perigoso seja por rejeição, crítica ou indiferença. Com o tempo, o sistema nervoso se adapta.
O problema é que esse comportamento costuma ser mal interpretado. Pessoas reservadas são frequentemente vistas como frias, distantes ou até indiferentes. E essa leitura equivocada só reforça a ferida original: a de não ser compreendido. Assim, cria-se um ciclo difícil de quebrar.
Mas há caminhos possíveis. Segundo estudos sobre apego, especialmente os desenvolvidos por Phillip Shaver e Mario Mikulincer, é possível construir segurança emocional ao longo da vida por meio de 'experiências emocionais corretivas'. Isso significa viver situações em que a vulnerabilidade não é punida, mas acolhida, onde o choro não gera rejeição, mas presença.
No fim, o que essas pessoas mais precisam não é de conselhos ou cobranças, mas de constância. De alguém que permaneça, que não vá embora diante da emoção, porque, para quem aprendeu a se esconder, sentir e ser aceito por isso é um dos atos mais corajosos que existem.