"É válido reconhecer momentos felizes do passado, mas o que foi, já se foi". A frase do psicanalista argentino Gabriel Rolón acende um alerta profundo, e extremamente atual, sobre as armadilhas da nostalgia.
Em um mundo onde é fácil se refugiar na saudade, o especialista lembra que há um risco silencioso em transformar a memória em moradia: o perigo de desejar mais ter sido feliz do que se permitir ser feliz no presente.
Para Rolón, a memória ocupa um lugar 'particular e enigmático', fazendo com que guardamos o que perdemos 'para que a morte não o leve embora para sempre'.
No entanto, essas lembranças quase nunca chegam até nós intactas. "Nós meio que editamos, usamos o Photoshop em nossas memórias", explica o psicanalista.
Com o tempo, a mente humana tende a idealizar relacionamentos, pessoas que já se foram e fases da vida, transformando, por exemplo, a infância em um território puramente belo. O problema surge quando essa edição perfeita do passado nos impede de construir a felicidade real e imperfeita no aqui e agora.
Uma boa ilustração dessa linha tênue entre usar a memória e ficar preso a ela está na ficção. Na novela Por Você, a personagem Bela (Sheron Menezzes) tem sido a peça-chave na recuperação de Gabriel (Thiago Lacerda) após um grave acidente.
No capítulo deste sábado (7), ela consegue fazê-lo acordar do coma ao recorrer a recordações dos momentos felizes que viveram quando eram namorados.
No entanto, o gesto de Bela não é um desespero para reviver o passado. Ela trará essas memórias apenas como um estímulo à vida dele, pois ela própria já seguiu em frente. Ela usou a lembrança como ponte, não como âncora.
Ao final, Rolón enfatiza que alimentar sonhos e projetos futuros continua sendo fundamental para a existência humana.
O especialista alerta contra o adiamento permanente do bem-estar no presente: "Nós somos o que fazemos com o que nos fizeram". Nossas experiências nos moldam, sem dúvida, mas não determinam a nossa capacidade de encontrar a felicidade possível no dia de hoje". Pense nisso!