Para quem não é muito fã de filmes de super-heróis, é fácil imaginar que grandes produções do gênero se resumem a efeitos especiais, batalhas grandiosas e mais uma tentativa de salvar a cidade de Nova York.
Não é difícil, portanto, deixar de lado essas histórias por acreditar que, em meio a tantos poderes e cenas de ação, sobra pouco espaço para reflexões realmente humanas.
Mas talvez seja justamente por trás dessa fantasia que algumas das metáforas mais interessantes estejam escondidas.
“Homem-Aranha: Um Novo Dia”, por exemplo, usa a trajetória de Peter Parker para falar sobre algo que vai muito além de heróis e vilões: a maneira como lidamos com o luto e aprendemos a conviver com a dor de uma perda.
Um dos aspectos mais interessantes do filme é a maneira como Peter Parker continua conversando, em sua imaginação, com a tia May muito tempo depois de sua morte.
Em vez de apresentar esse comportamento como um sinal de que algo está errado, a história o trata como uma parte natural do processo de elaboração do luto.
Segundo uma análise publicada no The Conversation, essa cena reflete uma ideia respaldada por pesquisas de que uma perda nunca é totalmente “superada”, mas aprendemos a crescer ao redor dela e a manter um vínculo saudável com a pessoa que já não está presente.
A reflexão também ajuda a entender por que tantas pessoas podem se sentir culpadas por continuar “pensando demais” em alguém que perderam, quando, na verdade, essa conexão pode fazer parte da maneira como seguem em frente.
A esse respeito, Luis Fernando Camacho, formado em Psicologia e especialista em Tanatologia, afirma que é importante “que as pessoas estejam presentes no dia a dia porque é uma forma de manifestar o amor; porque elas partem fisicamente, mas as lembranças permanecem junto com seu amor, e realmente esse tipo de conversa faz bem porque já não acontece a partir da dor, porque superar o luto seria esquecê-lo e omitir essa existência”.
Outra cena que chama a atenção é a relação entre Peter e Jean Grey, uma personagem que acaba de perder a irmã. Peter não tenta resolver sua dor nem apressar seu processo de luto; simplesmente mostra a ela que não está sozinha.
Esse gesto tão simples reflete algo que a ciência do luto repete diversas vezes: o apoio social e a conexão com outras pessoas são fundamentais para atravessar uma perda sem ficar preso a ela. Ver essa ideia representada em um filme de ação, com superpoderes envolvidos, fez com que ela parecesse ainda mais próxima e real.
Nem todas as perdas que marcam uma vida, no entanto, têm relação com a morte. Também é possível viver um luto pela perda de um trabalho, pelo fim de um relacionamento ou pela pessoa que éramos antes de uma mudança importante.
Nesse sentido, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” me lembrou que a dor causada por essas perdas também é legítima, mesmo que, às vezes, as pessoas ao nosso redor não a reconheçam como tal.
No fim, o filme deixa uma reflexão que vai muito além dos super-heróis: o luto, longe de ser apenas uma ferida, pode se transformar em uma fonte de força quando aprendemos a caminhar com ele em vez de fugir dele.
Talvez seja justamente aí que esteja a força de histórias como essa: por trás de superpoderes, batalhas e grandes ameaças, elas também podem esconder verdades pequenas, íntimas e profundamente humanas.
E, às vezes, é justamente essa dimensão que faz com que uma história consiga tocar até quem nunca se interessou muito pelo gênero.