A Copa do Mundo 2026 já agita as torcidas em edição marcada por recorde de seleções participantes (48) em três países-sede (EUA/México/Canadá). Ambiente propício para despertar frustrações em crianças, que por outro lado interagem mais com os pais para completarem o álbum com as figurinhas do jogadores, o Mundial faz ainda alguns torcedores apelarem para a mesma "roupa da sorte".
E a tudo isso se soma o esperado momento de comemoração de um gol, que na Copa é capaz de juntar torcidas rivais a cada quatro anos. Sim, tem a Olimpíada no meio do caminho e outras competições continentais, mas o charme do Mundial é único, você deve concordar. Mas, afinal, o que passa no cérebro quando o Brasil balança as redes?
"Quando acontece um gol do Brasil em uma Copa do Mundo, o cérebro processa aquele momento muito além de um simples evento esportivo. Estudos de neuroimagem mostram, que em situações como essa, ocorre a ativação de áreas ligadas ao sistema de recompensa, prazer, motivação e emoção, especialmente regiões associadas à liberação de dopamina (o hormônio do prazer)", explica o especialista em hipnoterapia Tony Couto ao Purepeople.
O momento máximo de uma partida de futebol acaba gerando uma série de alterações no torcedor. "Naquele instante, o cérebro recebe uma informação que interpreta como altamente significativa: uma conquista, uma vitória ou a aproximação de um objetivo desejado. A partir dessa interpretação, ocorre uma cascata de respostas fisiológicas e emocionais. O coração acelera, a respiração muda, a atenção se concentra totalmente no momento e o organismo entra em um estado de elevada ativação", prossegue o profissional.
"Como hipnoterapeuta, eu costumo dizer que o cérebro não reage apenas ao gol. Ele reage ao significado que aquele gol possui para cada pessoa. Para alguns, representa orgulho nacional. Para outros, lembra momentos vividos em família, memórias da infância ou experiências marcantes. É por isso que o mesmo gol pode gerar emoções completamente diferentes em pessoas diferentes", acrescenta.
E é exatamente por isso, que alguns torcedores "explodem" mais na comparação com outros. "A intensidade da reação depende de vários fatores, incluindo personalidade, história de vida, envolvimento emocional com o futebol e o estado emocional que a pessoa já carregava antes do jogo", lista Couto.
"Pessoas mais identificadas com um time ou com a Seleção tendem a apresentar respostas emocionais e fisiológicas mais intensas. O cérebro delas interpreta aquele acontecimento como algo muito pessoal. Na prática clínica, observamos que momentos de forte impacto emocional podem funcionar como catalisadores. Ou seja, o gol não cria, necessariamente, todas aquelas emoções; muitas vezes ele libera emoções que já estavam presentes", explica.
"Por isso algumas pessoas choram, gritam, pulam, abraçam desconhecidos ou até parecem perder momentaneamente a noção do ambiente. Em alguns casos, elas estão comemorando o gol. Em outros, estão também liberando tensão, ansiedade, estresse ou emoções acumuladas ao longo do dia, da semana ou até de períodos maiores da vida", detalha o especialista.
Para Tony Couto, não é regra absoluta, porém há uma relação entre a reação de um torcedor pelo gol e o comportamento que ele tem no dia a dia. "De forma geral, pessoas mais expansivas e emocionais costumam demonstrar suas emoções com mais intensidade em diversas situações da vida, inclusive durante uma partida de futebol. Já pessoas mais reservadas tendem a manter um padrão mais contido", compara.
E o Mundial acaba mexendo com os sentimentos de uma maneira diferente. "No entanto, a Copa do Mundo é um contexto especial. Ela desperta um forte sentimento de identidade coletiva e pertencimento. Nesses momentos, o indivíduo deixa de se perceber apenas como 'eu' e passa a se sentir parte de um grupo muito maior. Por isso, pessoas normalmente discretas podem reagir de forma muito mais intensa do que reagiriam em situações cotidianas. Não necessariamente porque mudaram de personalidade, mas porque estão inseridas em um contexto emocionalmente extraordinário", afirma.
"Como hipnoterapeuta, eu diria que a reação ao gol costuma ser uma combinação de dois fatores: aquilo que a pessoa já é no dia a dia e aquilo que aquele momento específico desperta dentro dela. Às vezes a comemoração reflete a personalidade. Outras vezes revela emoções que normalmente permanecem escondidas, mas que encontram naquele instante uma oportunidade legítima para se expressar", finaliza.