Segundo levantamento da Mensa Brasil, o país conta atualmente com 1,9 mil crianças e adolescentes e 3,1 mil adultos identificados com altas habilidades. Na Espanha, existem apenas 51.396 alunos oficialmente identificados nesta mesma condição, segundo dados do Ministério da Educação.
E digo “apenas” porque, de acordo com Javier Tourón, um dos maiores especialistas no tema no país, cerca de 90% das crianças com altas habilidades nunca chega a ser diagnosticada.
Ainda assim, a psicologia e especialistas em pedagogia apontam que muitos comportamentos infantis podem estar associados às chamadas altas capacidades. Isso não quer dizer que, se a criança apresentar todos esses traços, ela necessariamente seja superdotada — nem que, se não apresentar nenhum, não seja.
O diagnóstico exige avaliações específicas, como o Sistema de Avaliação de Crianças e Adolescentes (SENA), feitas por psicólogos, neuropsicólogos ou psicopedagogos especializados.
Toda criança faz perguntas — especialmente entre os 2 e os 4 anos, fase conhecida como a famosa “era do por quê”. Segundo a psicóloga Trinidad Aparicio Pérez, isso faz parte do desenvolvimento natural, já que a criança sente necessidade de aprender e entender o mundo.
Nos casos de crianças com altas habilidades, porém, essa curiosidade vai além do esperado: elas querem saber de tudo, o tempo todo, inclusive sobre temas profundos e abstratos, como vida, morte ou o sentido das coisas.
De acordo com especialistas do Centro Pediátrico de Sevilha, por volta dos 2 anos a maioria das crianças já consegue formar frases simples e entender um vocabulário mais complexo.
Crianças com altas habilidades, no entanto, costumam ir além: aprendem palavras novas com rapidez, usam frases longas e elaboradas cedo demais para a idade e, em alguns casos, demonstram interesse precoce pela leitura — especialmente se recebem estímulo adequado.
Um dos traços mais marcantes dessas crianças é a memória afiada. Elas lembram com facilidade de detalhes, histórias ou informações que ouviram meses — ou até anos — atrás.
A memória tem papel essencial no aprendizado e no desenvolvimento cognitivo e é um dos principais critérios em testes de inteligência. Segundo os psicólogos Olga Carmona e Alejandro Busto, autores do livro "Hijos con altas capacidades. El reto de educarlos", essa habilidade costuma ser uma das primeiras percebidas em crianças com altas capacidades.
Embora estudos indiquem que crianças com altas habilidades consigam adaptar seu comportamento para se enturmar com colegas da mesma idade, é comum que elas se sintam mais à vontade conversando com adultos ou crianças mais velhas.
Isso pode acontecer por dois motivos: elas podem se sentir deslocadas entre os colegas da mesma faixa etária ou buscar conversas, jogos e desafios intelectuais mais estimulantes — algo que nem sempre encontra entre crianças da mesma idade.
Segundo a Associação Espanhola de Superdotados e Talentosos (AEST), crianças com altas habilidades gostam de fazer tudo do seu próprio jeito. Muitas vezes, têm interesses que fogem do padrão escolar ou não combinam com o que se espera para a idade.
Essa criatividade aparece nas ideias que têm, nos jogos que inventam e nas conexões inusitadas que fazem entre assuntos aparentemente sem relação. É aquele tipo de criança que surpreende com raciocínios fora da curva e soluções inesperadas.