Criar um filho é, sem dúvida, a tarefa mais importante e complexa que um ser humano enfrenta na vida. O futuro das crianças depende das ações dos responsáveis, algo que pode ter um impacto bastante duradouro.
Não se trata apenas de uma preocupação com a saúde, mas de um desejo de que essas crianças se tornem adultos felizes, bem-sucedidos e capazes de se relacionar com os outros de forma saudável. Para isso, é essencial que eles sejam ensinados, desde pequenos, a desenvolver habilidades relacionadas à inteligência emocional.
A especialista em parentalidade Reem Raouda, colaboradora do programa de Oprah e fundadora do Método da Disciplina Conectada, estudou o comportamento de mais de 200 crianças ao longo de sua carreira e identificou características de alta inteligência emocional que indicam que os esforços dos pais estão no caminho certo.
Identificar e nomear emoções é complexo, mesmo para adultos, especialmente considerando nossa tendência a acreditar em emoções negativas e positivas, o que complica a tarefa. Como explicou a psicóloga e diretora do portal Trendencias, Iria Reguera, todas as emoções são válidas e "o que realmente importa é como você as gerencia e o que faz com elas".
O primeiro passo para aprender a gerir as emoções é identificá-las; aliás, é fundamental para a educação emocional, como explica a psicóloga María Jesús Campos Osa. E o caminho para isso começa pelos adultos
Os responsáveis devem ser capazes de nomear as emoções na presença das crianças. Usar frases como "Estou feliz porque tivemos um dia muito divertido em família" ou "Sinto-me frustrado no trabalho" deve fazer parte das conversas em casa, para que as crianças aprendam a reconhecer e comunicar as suas emoções e a normalizar a sua expressão.
Em crianças muito pequenas, é possível ensinar-lhes ferramentas e narrativas para que compreendam emoções através de jogos, desenhos, histórias ou atribuindo uma palavra àquele sentimento, como proposto pelo psicólogo e doutor em educação Rafael Guerrero no livro “Educação Emocional e Apego”.
Por meio da linguagem corporal e das expressões faciais, crianças com inteligência emocional desenvolvida conseguem compreender os sentimentos de outras pessoas e identificar, por exemplo, se elas estão tristes.
Reem Raouda explicou à CNBC que, para desenvolver essa habilidade, é útil "ter conversas reflexivas com eles sobre o dia a dia e analisar as emoções que observaram nas pessoas com quem interagiram".
Se as crianças contarem sobre um amigo da escola, podemos perguntar: "Como você acha que isso fez seu amigo se sentir?", para iniciar uma conversa sobre as emoções que perceberam.
Uma das principais características ligadas à inteligência emocional é a empatia, que nos permite compreender as emoções e os sentimentos de outras pessoas. É uma habilidade que vai além de simplesmente nos colocarmos no lugar do outro, pois entendemos o que ele está passando, mesmo que não pensemos da mesma forma ou concordemos com ele.
Essa habilidade social nos permite, como explicou Reguera, “ter melhores relacionamentos sociais, reduzir o preconceito, o bullying, a discriminação e o racismo, e nos fazer sentir melhor pessoalmente”.
Para as crianças pequenas, a melhor maneira de desenvolver empatia é demonstrá-la por meio de ações concretas de ajuda ao próximo. Elas devem aprender a ouvir e a fazer perguntas observando como agimos.
Pode parecer que as crianças não nos ouvem, mas elas conseguem perceber nossas emoções, fazer perguntas e demonstrar curiosidade sobre o que lhes dizemos. Isso acontece porque aprenderam a praticar a escuta ativa e a escuta reflexiva, duas habilidades essenciais na comunicação.
Novamente, a melhor maneira de desenvolver essa habilidade, como explica Raouda, é por meio da imitação. “Quando seu filho tiver uma história para contar, dê a ele toda a sua atenção. Faça contato visual, pare o que estiver fazendo e abaixe-se até a altura dele. Reflita e repita o que ele está dizendo para mostrar que você está realmente ouvindo”, aconselha o especialista.
A capacidade de adaptação à mudança é inata no ser humano. Reguera explica que "as pessoas não só precisam se adaptar às circunstâncias, como são extremamente capazes de fazê-lo".
No caso das crianças, se elas perceberem que uma mudança de planos não é algo ruim, mas, sim, uma oportunidade de fazer algo diferente, estaremos fomentando sua adaptabilidade, algo que mais tarde as ajudará a desenvolver resiliência.
Se nos mantivermos flexíveis e calmos em nossas próprias reações a qualquer mudança, a criança será capaz de imitar nosso comportamento. Além disso, podemos usar essas mudanças para ensinar a criança a encontrar soluções, perguntando a ela o que podemos fazer quando os planos mudam.
Por exemplo, você planejava passar a tarde no parque, mas está chovendo muito. Pergunte a ela o que vocês podem fazer em casa e deixe que ela resolva o problema sozinha.
A autorregulação é um aspecto fundamental da gestão emocional. Por exemplo, aprender a lidar com a frustração ao perder um jogo de tabuleiro. "Crianças emocionalmente inteligentes conseguem lidar com sentimentos intensos, manter a calma em momentos difíceis e tomar decisões sensatas", explica a especialista em educação parental.
Segundo Raouda, a melhor maneira de desenvolver essa habilidade começa com nós mesmos e com nossa autorregulação. Devemos evitar reações exageradas para que as crianças aprendam que as emoções podem ser controladas.
Por exemplo, dirigir para a escola buzinando e gritando com outros motoristas dá um péssimo exemplo. Se elas nos virem manter a calma nessas situações, aprenderão muito mais. A especialista também sugere o uso da técnica de "pausa e respiração", na qual você ensina seu filho a respirar profundamente ou contar até 10 durante momentos difíceis. É algo que os adultos deveriam praticar com mais frequência!