Viver no passado e me preocupar obsessivamente com o futuro foi, durante algum tempo, meu modo de levar a vida. Eu só pensava no presente quando ele já havia passado.
O problema é que a felicidade nunca está nem atrás nem à frente no tempo: ela está no agora.
Pelo menos era isso que defendia o filósofo estoico Sêneca ao dizer que “para ser feliz, você precisa eliminar duas coisas: o medo de um futuro ruim e a lembrança de um passado ruim”.
A tradução exata que aparece nas “Cartas a Lucílio” é: “Há duas coisas que é preciso eliminar: o temor do futuro e a lembrança dos incômodos passados; estes já não me dizem respeito, aquele ainda não”.
O que aconteceu já não importa; quanto ao que virá, veremos se terá ou não importância quando chegar.
A percepção de que viver divididos entre o ontem e o amanhã é uma fonte de sofrimento maior do que parece não é exclusiva de Sêneca. Ao longo dos anos, muitos outros filósofos refletiram sobre o assunto.
Para Arthur Schopenhauer, os seres humanos se diferenciam dos animais por sua capacidade intelectual, que nos permite expandir a mente através do tempo. Ela pode se voltar para o passado por meio da memória ou para o futuro por meio da antecipação e das expectativas.
Segundo explica Schopenhauer em “O Mundo como Vontade e Representação”, a maior parte de nossos tormentos não está no presente físico, mas nesse “campo ilimitado para o desejo e a aversão” que é a mente quando se abre às lembranças ou às expectativas. É aí que mais sofremos: no passado e no futuro.
A cultura pop está repleta de personagens que ilustram esse conflito.
Em “O Rei Leão”, Simba passa anos atormentado pela morte do pai e, preso à culpa, foge de suas responsabilidades no presente. Elsa, de “Frozen”, também é marcada por um acontecimento doloroso da infância e vive com medo do que seus poderes poderão provocar no futuro.
Embora pertençam a universos diferentes, os dois personagens mostram como as lembranças ruins e a antecipação de novas tragédias podem nos impedir de viver plenamente o agora.
O taoismo, o budismo, o estoicismo e a psicologia atual concordam com Schopenhauer que o presente é o único momento em que existe uma capacidade real de ação e, portanto, uma oportunidade de experimentar a felicidade.
Você não pode mudar o passado nem controlar o futuro, mas pode escolher o que fazer agora.
Não encare isso como uma mensagem de uma caneca que convida você a viver o presente ao estilo “carpe diem”, mas como uma oportunidade de parar de pensar no passado, que já se foi, ou de deixar de transformar o futuro em uma fonte de ansiedade ao imaginar cenários terríveis.
Quando dividimos a vida entre um passado ruim que nos atormenta e um futuro que nos assusta porque acreditamos que também será ruim, estamos arruinando o presente. Os animais fogem do perigo e se acalmam quando ele passa.
Nós, seres humanos, nos atormentamos não apenas pelo perigo que vivemos, mas também por aquele que acreditamos que viveremos.
Do ponto de vista do estoicismo, voltar a sofrer por algo que já aconteceu, que vivemos e ao qual sobrevivemos é nos tornar infelizes voluntariamente. Viver angustiados com o que está por vir é nos fazer infelizes antes da hora. Na verdade, é possível que esse futuro que você imagina nem sequer exista.
Nem o passado nem o futuro estão sob nosso controle, e aceitar aquilo que não depende de nós é o primeiro passo para deixarmos de nos preocupar obsessivamente com esse passado e esse futuro que não estão em nossas mãos, mas apenas em nossa mente.
“A verdadeira felicidade consiste em desfrutar o presente, sem depender ansiosamente do futuro, sem nos entretermos com esperanças ou temores, mas estando satisfeitos com o que temos, que é suficiente, pois quem vive assim não precisa de nada”, escreveu Sêneca a Lucílio.
Mas a verdadeira felicidade também está em não permanecermos presos a um passado que já se foi porque, como diz o provérbio, “águas passadas não movem moinhos”, e aquilo que já aconteceu não pode ser mudado.
A verdadeira tranquilidade da alma, como explicam os estoicos, é alcançada quando conseguimos reduzir nossas expectativas, assumimos o controle do presente e deixamos de nos preocupar obsessivamente com o passado.
No fim, como Sêneca nos lembra em outra de suas epístolas, “quem vive cada dia como se fosse toda a sua vida se sentirá seguro”.