Terminei de ler 'A Biblioteca da Meia-Noite' há uma semana. O best-seller de Matt Haig já vendeu mais de 7 milhões de exemplares e foi traduzido para mais de 40 idiomas. Mas, mais do que uma boa leitura, o livro me fez pensar, principalmente pelas várias referências filosóficas espalhadas ao longo das páginas.
Entre tantas citações, uma não sai da minha cabeça desde que fechei o livro. É de Henry David Thoreau: "Não é o que você olha que importa, mas o que você vê".
A frase não fala simplesmente sobre o ato físico de olhar, mas sobre o que significa realmente enxergar. Podemos olhar para a obra Guernica, de Picasso, e notar apenas preto, branco e cinza, formas geométricas e figuras distorcidas. Mas, quando observamos com mais atenção, tudo ganha outro sentido.
Se observarmos com atenção, passamos a ver a Guerra Civil Espanhola em um de seus momentos mais brutais. Vemos o caos, a morte, o desespero... olhar é um ato dos sentidos. Ver envolve interpretação. A nossa interpretação.
Para Thoreau, a diferença entre olhar e ver está em nós. A experiência do mundo não está apenas nas coisas que acontecem, mas na forma como as interpretamos. Assim como os estoicos, como Marco Aurélio, defendiam que não são os acontecimentos externos que determinam nosso bem-estar, mas a maneira como reagimos a eles, aquilo que vemos também depende do nosso contexto. Emoções, crenças e vivências moldam a nossa realidade subjetiva.
Duas pessoas podem observar a mesma cena e enxergar coisas completamente diferentes. Isso pode acontecer porque têm histórias de vida distintas, crenças diferentes ou porque estão vivendo momentos emocionais opostos. Também pode ser que cada uma esteja focada em aspectos diferentes da mesma situação.
Para alguns, o mar é assustador; para outros, é sinônimo de paz. Mas o mar continua sendo o mar. Uma folha em branco pode ser apenas papel para você, mas para mim pode ser a chance de começar algo novo. Esse fenômeno é chamado de processamento de cima para baixo.
A percepção não funciona como uma via de mão única, em que a informação sai dos sentidos e segue direto para o cérebro para ser interpretada. O cérebro também participa ativamente do processo, trazendo contexto, expectativas, foco de atenção e experiências anteriores, que influenciam a forma como percebemos o que está diante de nós.
Em outras palavras, a mente não apenas recebe informações, ela as constrói com tudo o que somos naquele momento. Como escreveu Thoreau, "O mundo não passa de uma tela para a nossa imaginação". Pode soar poético, mas a neurociência confirma essa ideia.
Seguindo essa linha de pensamento, em seus diários ele afirma que "só ouvimos e entendemos o que já sabemos pela metade". Isso acontece porque parte do que percebemos nasce dentro de nós. Interpretamos a realidade a partir de estruturas mentais que já carregamos. Isso é necessariamente ruim? Não.
Embora possa nos levar a vieses cognitivos, que nos fazem acreditar que a nossa visão é a única possível, também nos lembra de algo importante: aquilo que vemos nunca seria exatamente igual se outra pessoa estivesse no nosso lugar. E há algo de muito bonito nisso.