Mal nos recuperamos do final poderoso de 'A Nobreza do Amor', que contou com mais acertos do que erros, e o público já está fervoroso com a chegada da nova novela das seis da TV Globo: 'Lá na Minha Terra'.
A produção de Mario Teixeira, com direção artística de Allan Fiterman, estreia nesta segunda-feira (9), mas já está dando o que falar nas redes sociais. A representação do Nordeste, que tem sido questionada por supostamente reforçar estereótipos de pobreza, atraso e falta de modernidade. Eita!
Com Dira Paes, Lucy Alves, Mateus Solano, Daniel de Oliveira, Camila Morgado e Jesuíta Barbosa no elenco, a trama acompanha Rosenda (Dira Paes), uma mulher que passou mais de 15 anos esperando pelo marido, Severino (Daniel de Oliveira), desaparecido depois de partir para São Paulo em busca de uma vida melhor.
Ao decidir procurá-lo, ela descobre que o companheiro está vivo, tornou-se um empresário milionário, adotou outra identidade e construiu uma segunda família sem sequer se divorciar dela!
A história se divide entre Lavra Seca, cidade fictícia do interior nordestino, e São Paulo, onde Severino agora atende pelo nome de Cesário Ávila. Mas foram justamente as primeiras imagens do núcleo nordestino que despertaram a insatisfação de parte dos espectadores.
Nas chamadas, a estética amarelada, os figurinos desgastados, os cenários rurais e a caracterização dos personagens foram apontados como elementos que reforçariam uma visão ultrapassada da região.
No X, antigo Twitter, as comparações com outras produções da Globo também ganharam força. "Como é possível a cidade e figurinos de 'Nobreza do Amor', que se passa em 1920, parecerem mais modernos que a cidade e figurinos de 'Lá na Minha Terra', que se passa em 2026?", questionou um usuário da plataforma.
"O autor de 'Lá na Minha Terra', nova novela da TV Globo, é o Nikolas Ferreira? Povo amarelado de poeira, uma mulher tendo que ir buscar o outro e andando de pau-de-arara em SP. Só pelo anúncio já deu para observar um 'caminhão' de estereótipos, anacronismos e outras bizarrices", criticou Rodrigo Cavalcante.
A comparação entre as duas regiões também apareceu em outra publicação: "Não sei nem como explicar, mas parece que tem um túnel do tempo: o Nordeste aparece em 1926, enquanto o Sudeste aparece em 2026, tudo ao mesmo tempo!", escreveu o perfil. "'Roque Santeiro", de 1985, consegue apresentar um Nordeste mais moderno que o dessa novela. Serão meses turbulentos", comentou mais alguém. Eita!
As críticas também chegaram acompanhadas de previsões negativas sobre a produção. "Essa 'Lá na Minha Terra' vai dar bastante audiência, mas também será uma das piores novelas já feitas na história", avaliou outro usuário.
A discussão não ficou restrita às redes sociais! Em entrevista ao jornalista Matheus Queiroz, do Notícias da TV, João Pedro Ramalho Martins, pesquisador que estuda a representação do sertão na dramaturgia, chamou atenção para a maneira como a televisão costuma associar o Nordeste ao passado e o Sudeste à modernidade.
"Na minha visão pessoal, é mais difícil ter um imaginário televisivo nas capitais [do Nordeste], nos centros urbanos, porque não se tem interesse de criar histórias sobre isso, de mostrar, de fato, que existem outros cenários e realidades possíveis. Justamente, para marcar uma diferença entre o que seria urbano e rural. A partir do momento que você tira dos grandes centros do Sudeste o local do urbano, eles, talvez, percam um pouco", disse ele.
João Pedro também questionou a pouca presença de elementos tecnológicos nas primeiras imagens da novela. Um exemplo é o personagem de Lurdinha (Julia Dalavia), que desenvolve uma startup voltada à recuperação e purificação de água.
“Tem algo que me chamou a atenção, pelos trailers da novela, é que essa tecnologia do sertão me parece um pouco tímida. Quase não vi celulares com os personagens, não tem um vaqueiro de moto, é tudo de cavalo ainda - e poderia ter um vaqueiro de moto, como a gente já tem em muitos interiores do Nordeste hoje, tangendo seu gado de moto", continuou.
Mario Teixeira, por sua vez, já havia falado sobre a intenção de apresentar uma representação diferente da região. Em entrevista ao gshow, publicada em 21 de outubro, o autor explicou que deseja mostrar um Nordeste moderno e pouco explorado pela teledramaturgia. "A gente quer mostrar um Nordeste novo, um Nordeste que ainda é muito pouco visto, não só em termos de natureza, como em termos de modernidade", afirmou.
O escritor também destacou a intenção de retratar a região como um polo de tecnologia, justamente para combater preconceitos que ainda persistem sobre a população nordestina: "A gente está mostrando o Nordeste dessa vez como um polo de tecnologia importante".
O diretor artístico Allan Fiterman também comentou a preocupação com os estereótipos. Segundo ele, a escolha de paisagens da Chapada Diamantina, na Bahia, ajudou a construir uma representação diferente do sertão, com montanhas, vegetação e água. "Isso amplia o imaginário e evita estereótipos, porque o Sertão é plural, e é esse Sertão plural que queremos trazer para a novela", explicou ao gshow.
A discussão também recupera uma polêmica que acompanha os trabalhos anteriores de Mario Teixeira e Allan Fiterman. Antes de 'Lá na Minha Terra', os dois estiveram à frente de 'Mar do Sertão' (2022) e 'No Rancho Fundo' (2024), produções que também receberam questionamentos sobre a representação da população nordestina.
Em 'No Rancho Fundo', por exemplo, uma imagem de divulgação da família Leonel provocou críticas nas redes sociais pela caracterização dos personagens, com roupas desgastadas e aparência empoeirada. Na ocasião, Mario explicou que a fotografia era apenas um teste interno de paleta de cores, e não uma imagem aprovada para divulgação.