Sete anos longe das novelas. Sete anos em que Luís Melo, um dos mais respeitados atores do teatro e da televisão brasileira, parecia ter encerrado (ou pelo menos pausado) sua trajetória no horário nobre. Desde sua última participação em “O Outro Lado do Paraíso” (2018), ele havia se recolhido ao interior do Paraná, imerso em seu projeto artístico e de vida: o Campo das Artes, em São Luiz do Purunã. Mas o improvável aconteceu.
O retorno, que ele mesmo não esperava, aconteceu em 2025. E não foi por qualquer personagem ou qualquer história. Aos 67 anos, Melo surpreendeu ao aceitar o papel de Bartolomeu, um jornalista veterano no remake de "Vale Tudo", clássico da TV Globo. O motivo envolveu uma combinação rara de afeto, propósito e desafio...
Mas antes de entrar em cena, houve um momento de hesitação. “Não estava nos meus planos voltar às novelas agora", confessou o ator, de forma direta, à reportagem do UOL. O que mudou, então? Um convite. Mas não qualquer convite. Um chamado “carinhoso”, como ele mesmo definiu, vindo do diretor Paulo Silvestrini.
Junto a isso, a chance de trabalhar pela primeira vez com a roteirista Manuela Dias, autora de obras como "Amor de Mãe". Essa combinação mexeu com Melo e com seu desejo adormecido de estar novamente em um estúdio de televisão. E havia mais.
"Vale Tudo", na nova versão, propõe uma abordagem atual e necessária sobre o etarismo, tema pouco explorado na teledramaturgia brasileira. E é justamente esse o dilema do personagem Bartolomeu: um profissional experiente, dispensado pela empresa durante uma reestruturação que visa rejuvenescer o quadro de funcionários. Um espelho do que muitos enfrentam fora das telas.
“As pessoas estão vivendo mais, produzindo mais e merecem espaço no mercado. Esse tipo de movimento [demissões por idade] é nocivo e acontece em todas as áreas”, disse ele ao jornalista da Folha de Pernambuco, destacando a urgência da discussão sobre inclusão etária.
Além do drama profissional, Bartolomeu também protagoniza uma história de amor na maturidade, ao lado da personagem Eunice, vivida por Edvana Carvalho. Para Melo, o relacionamento entre os dois representa “reinvenção e equilíbrio”, trazendo à tona afetos reais, longe dos estereótipos que geralmente marcam personagens mais velhos. “Fico feliz em ver meus amigos experientes brilhando no vídeo. A mistura entre novos e antigos talentos é o que faz uma novela realmente boa”, refletiu o ator.
A decisão de voltar não apagou o compromisso com seu refúgio artístico. Desde 2008, Melo mantém o Campo das Artes, espaço cultural dedicado a teatro, dança, literatura e exposições. Para ele, o projeto continua sendo seu “ato de amor e resistência”, como declarou. Mas, desta vez, foi o amor por um bom texto e por temas necessários que falou mais alto.