Pouca gente sabia que, enquanto brilhava nos tapetes vermelhos e consolidava uma das carreiras mais respeitadas de Hollywood, Lupita Nyong’o enfrentava uma batalha silenciosa contra uma condição que atinge milhões de mulheres: os miomas uterinos.
A revelação partiu da própria atriz no ano passado. Em um longo texto publicado em seu perfil nas redes sociais, Lupita contou que convive com o diagnóstico há mais de uma década - e que, nesse período, precisou passar por uma cirurgia para retirar 30 miomas de uma única vez.
“Em março de 2014, ganhei um Oscar. Naquele mesmo ano, descobri que tinha miomas uterinos. Trinta miomas. Fiz uma cirurgia para removê-los. Perguntei à minha médica se havia algo que eu pudesse fazer para evitar que eles voltassem. Ela disse: ‘Não tem como. É apenas uma questão de tempo até que cresçam de novo’”, escreveu.
O relato chama atenção não apenas pelo número, mas pelo contraste: no mesmo ano em que alcançou o auge profissional ao vencer o Oscar por “12 Anos de Escravidão”, Lupita recebeu um diagnóstico que mudaria sua relação com o próprio corpo!
Miomas são tumores benignos que se desenvolvem na musculatura do útero e podem provocar dor intensa, sangramento menstrual abundante, anemia e dificuldades reprodutivas. Apesar de comuns, muitas mulheres demoram a buscar ajuda - em parte porque aprendem, desde cedo, a naturalizar o sofrimento.
Foi justamente esse ponto que Lupita destacou em seu desabafo: “Quando chegamos à puberdade, somos ensinadas que menstruar significa sentir dor, e que dor é simplesmente parte de ser mulher”.
Ao compartilhar a própria experiência, ela disse ter percebido o quanto o problema é coletivo e silencioso. “Comecei a compartilhar minha experiência em particular e percebi que muitas mulheres estão passando por isso. Estamos lutando sozinhas contra algo que mais nos afeta. Chega de sofrer em silêncio! Precisamos parar de tratar esse problema enorme como uma série de coincidências infelizes”, acrescentou.
A atriz também defendeu mudanças estruturais! “Precisamos rejeitar a normalização da dor feminina. Eu imagino um futuro com educação precoce para adolescentes, melhores protocolos de triagem, pesquisas robustas de prevenção e tratamentos menos invasivos para os miomas uterinos. Vamos estudar a saúde da mulher e priorizar essa condição crônica que nunca foi examinada de forma abrangente”, concluiu.
Nos últimos dias, Lupita voltou a ampliar o debate ao se unir à Foundation for Women’s Health em um movimento por mais pesquisa e tratamentos menos invasivos para os miomas uterinos. Em nova manifestação pública, a atriz destacou que, embora comuns, os miomas não devem ser considerados normais - especialmente diante do impacto desproporcional sobre mulheres negras.
Segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), mulheres negras têm até três vezes mais chance de desenvolver miomas e costumam apresentar sintomas mais severos e precoces. No Brasil, estima-se que cerca de 80% das mulheres negras terão a condição até os 50 anos. Em 2024, os miomas uterinos foram a terceira maior causa de afastamento do trabalho entre mulheres no país.
Embora frequentemente associados a preocupação, os miomas, na maioria dos casos, não são malignos. Por serem tumores benignos, não exigem automaticamente cirurgia. A definição do tratamento - inclusive a retirada - depende de avaliação individualizada, considerando sintomas, idade, desejo reprodutivo e impacto na qualidade de vida.
A apresentação clínica varia bastante. Há mulheres assintomáticas, com miomas pequenos descobertos em exames de rotina. Em outros casos, os nódulos podem crescer significativamente, ocupar diferentes regiões do útero e comprometer a rotina. O diagnóstico costuma ser feito por ultrassonografia transvaginal; quando é necessário mapear melhor tamanho e localização, a ressonância magnética da pelve pode complementar a investigação.
Ao comentar o caso de Lupita ao Purepeople, o ginecologista Dr. Thiers Soares avaliou a quantidade de tumores removidos. “30 miomas é um número bem grande, sim. Claro que o ideal é sempre diagnosticar e abordar essas pacientes quando elas têm um número menor de miomas”, afirmou.
Ele explica que o atraso no diagnóstico é comum. “Mas, por diferentes razões, esse diagnóstico, muitas vezes, acaba sendo atrasado e, com isso, a paciente desenvolve miomas grandes ou miomas numerosos, ou grandes e numerosos - ainda tem isso”, acrescentou.
Mesmo diante de um cenário considerado expressivo, o especialista pondera que o número isolado não determina a retirada do útero. “No caso específico de 30 miomas, realmente é um número bastante expressivo. Ainda assim, como sempre reforço, não há uma questão de número para preservar o útero.” “Ainda que seja um número alto, a gente consegue preservar, sim, o útero”, completou o médico.
Sobre prevenção, ele destacou que não existe medida capaz de impedir totalmente o surgimento ou crescimento dos miomas, mas hábitos saudáveis podem contribuir para reduzir a incidência.
“Não há nada específico que possa impedir o crescimento do mioma, mas claro que ter uma vida saudável, se alimentar bem, fazer exercícios e não ganhar muito peso são fatores favoráveis para diminuir a prevalência de mioma. Mas também tem a questão genética, principalmente associada a pacientes da raça negra, que têm uma prevalência maior a miomas e os casos são mais graves”, explicou.
Segundo levantamento da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), mais da metade das mulheres desenvolverá miomas em algum momento da vida.