Aos sábados, Marcos Mion comanda o "Caldeirão" com energia contagiante, carisma afiado e uma entrega que virou sua marca registrada na TV Globo. Mas, por trás do sorriso largo e da vibração com a plateia, existe uma história atravessada por dor, perda e um luto que moldou a trajetória do apresentador desde a adolescência.
Pouca gente sabe, mas há 32 anos, o comunicador enfrentou uma tragédia familiar de cortar o coração. Com apenas 14 anos, perdeu o irmão mais velho, Marcelo, em um acidente em São Paulo. Na época, Marcelo tinha 18 anos e havia acabado de ser aprovado no vestibular de Medicina.
Para comemorar a conquista, saiu com os amigos para passear na Avenida Paulista e, durante o encontro, acabou caindo do vão livre do MASP, um dos pontos mais emblemáticos da capital. Morreu na hora.
Mion viu o mundo desabar e enfrentou uma profunda depressão nos dias seguintes. "Eu não conseguia sair do quarto. Entrei em uma depressão gigante", contou, em entrevista ao canal de André Vasco no YouTube, em 2018. Foi, inclusive, a partir da tragédia que o apresentador entrou no mundo artístico.
"O teatro entrou na minha vida depois que meu irmão morreu. Eu simplesmente não fazia nada, engordei mais de 20 quilos, fiquei gordo, malzaço. Minha mãe chegou um dia e falou: 'É o seguinte, matriculei você em uma escola de teatro e é isso que você vai fazer, porque sei que é o que está dentro de você que vai te tirar dessa situação'. A única coisa que fiz para não ser igual a ele foi o teatro. O resto, a minha vida inteira é uma cópia dele", completou.
Foi justamente com a arte cênica que Marcos conseguiu viver dia após dia. "A arte me deu a vida, na verdade. Gostei desde o primeiro dia, porque no momento em que entrei ali, eu podia esquecer o que eu era e dar vida a qualquer personagem. Entendi que podia rir de novo, fazer os outros darem risada, e aí a vida foi voltando pra dentro de mim", desabafou. Anos depois, ele estrearia na TV como ator e, posteriormente, migraria para a apresentação, onde se encontrou profissionalmente.
O tema da morte do irmão não é recorrente nas falas públicas de Mion, mas volta e meia reaparece de forma significativa. Em entrevista à revista "GQ Brasil", no ano passado, ele voltou a falar sobre o luto e o que ouviu da mãe, Carmem Chaib Mion, psicanalista.
“O luto é proporcional ao tamanho do amor, e não acaba. O tempo não cura, mas amortece. É como andar com uma pedra pesada em um dos bolsos. No começo ela incomoda; faz andar meio torto. Depois você vai se acostumando, mas a pedra segue lá. Lembro até hoje quando percebi que tinha vivido exatamente o mesmo tanto que meu irmão viveu. E eu não havia vivido absolutamente nada", expressou.
“Minha mãe diz que só conseguiu lidar com a perda de um filho e levantar todos os dias da cama por causa de seu amor por mim. Ela estava devastada, mas queria que eu sempre visse os olhos dela sorrindo. Eu desejava replicar esse amor, passar adiante o que sabia; queria conquistar a mesma família dos meus pais, mesmo que marcada por uma tragédia. Tinha 13 para 14 anos quando meu irmão morreu. Aos 16, já cultivava uma obsessão por virar pai antes dos 20. Eu era intenso, achava que morreria no dia seguinte", declarou.
O trauma familiar também influenciou a maneira como Marcos Mion se relaciona com a fé e a paternidade. Pai de três filhos, ele é uma das vozes mais conhecidas no ativismo em torno do autismo, por causa do primogênito, Romeo. Embora sejam temas distintos, Mion já declarou que toda forma de enfrentamento pessoal que viveu desde a adolescência fortaleceu sua empatia - especialmente com pais e mães de crianças atípicas.
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