Todos conhecemos alguém com esse perfil. Uma pessoa que interrompe em um grupo de amigos, que fala quando estamos contando algo e que, independentemente do contexto, sempre corta a conversa para expor seu ponto de vista - ou pior, para mudar de assunto de forma brusca.
Todos queremos nos sentir ouvidos, mas quando isso não acontece, a relação pode começar a se desgastar. As interrupções constantes por parte da mesma pessoa soam como uma falta de respeito aos nossos pensamentos, geram sensação de invasão do espaço pessoal e a impossibilidade de concluir a ideia sobre a qual estávamos falando prejudica o processo comunicativo.
Segundo Maria Venetis, professora associada de Comunicação na Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, isso pode soar degradante e condescendente, chegando a nos irritar “porque insinua que minhas ideias ou minha participação não são válidas”.
Tantas interrupções podem ser tão irritantes que, segundo uma pesquisa de Susan RoAne - autora e palestrante conhecida como a "A Especialista em Socialização" - para seu livro "What Do I Say Next", trata-se de um dos três principais fatores que encerram uma conversa.
Os motivos pelos quais uma pessoa interrompe vão além de ser apenas impertinente ou narcisista. Tampouco significa necessariamente que esteja entediada. Segundo a psicologia, por trás desses “interrompedores crônicos” existem diferentes fatores que vão desde traços de personalidade até transtornos psicológicos e até diferenças culturais.
Existe a possibilidade de que o adulto que interrompe tenha aprendido esse comportamento ainda criança. Pode parecer uma conduta natural, algo automático, porque na sua família todos se comunicavam assim.
Isso não justifica a atitude - que fique claro -, mas explica por que, para algumas pessoas, interromper é quase instintivo e difícil de evitar. Elas podem até achar que isso torna a conversa dinâmica, sem perceber que o interlocutor recebe como algo negativo.
Segundo a Dra. Sharon Saline, “as pessoas com TDAH costumam ter um controle mais fraco dos impulsos verbais, além de problemas com memória de trabalho e metacognição”. Isso pode fazer com que interrompam porque não confiam que lembrarão do que querem dizer mais tarde.
O mesmo ocorre com pessoas neurodivergentes, como aquelas no espectro autista, e com qualquer pessoa que tenha dificuldades de autocontrole.
Russell Barkley, especialista em TDAH, também destaca que esses sintomas vêm de déficits na função executiva do cérebro, dificultando filtrar estímulos irrelevantes - inclusive os próprios pensamentos - o que torna difícil manter a atenção na conversa por longos períodos.
Segundo Carl Rogers, fundador da psicologia humanista, a escuta ativa exige que “o ouvinte suspenda seus próprios julgamentos e se envolva genuinamente na experiência do outro”.
Se a pessoa não tem essa habilidade, em vez de ouvir o que você diz, fica preparando mentalmente o que quer dizer na sequência - e pode perder a paciência e interromper.
Às vezes, a pessoa está tão animada, ansiosa ou eufórica com o tema que não consegue esperar para falar. Sharon Saline explica que, quando a excitação é mal administrada, a pessoa interrompe porque não consegue segurar a necessidade imediata de compartilhar seus pensamentos.
Em alguns casos, interromper é fruto de impaciência. Talvez a conversa não esteja indo para onde a pessoa deseja, ou esteja avançando devagar demais na opinião dela.
Interromper se torna então uma forma de retomar o controle da conversa e direcioná-la ao resultado que quer.
Um motivo curioso: diferenças de gênero influenciam quem interrompe e quem é interrompido.
Um estudo da Universidade George Washington mostrou que homens interrompem mulheres 33% mais do que interrompem outros homens.
Joanna Wolfe, da Universidade Carnegie Mellon, afirma que pesquisas comprovam que homens são mais propensos a fazer interrupções intrusivas que silenciam outros falantes, enquanto mulheres são mais propensas a serem o alvo dessas interrupções. Daí vem toda uma discussão sobre comunicação e desigualdade de gênero.