Muita gente simplesmente não consegue separar a vida profissional da pessoal. Quando isso acontece, o trabalho passa a dominar a rotina e, sobretudo, os diálogos! Segundo reportagem do jornal argentino Los Andes, falar sem parar sobre questões profissionais, mesmo fora do escritório, pode revelar muito mais do que entusiasmo ou ambição...
A psicologia aponta que esse padrão vai além da ideia de compromisso: ele também pode esconder sobreidentificação, necessidade de validação, sinais de ansiedade e até respostas inconscientes a um estado de estresse constante.
De acordo com o jornal argentino, falar frequentemente sobre o próprio emprego nem sempre é sinônimo de amor pelo que se faz. Em muitos casos, é uma maneira de expressar conflitos internos relacionados à identidade, ao modo como lidamos com emoções ou à dificuldade de desconectar.
Segundo o texto, “a maioria das vezes não se trata só de paixão pelo que se faz, mas de sinais internos sobre identidade, ansiedade ou a forma como manejamos nossas emoções”.
Para muitas pessoas, o emprego deixa de ser uma atividade e passa a funcionar como um componente central da identidade. Em sociedades nas quais o título profissional é um dos primeiros dados compartilhados sobre alguém, isso se intensifica!
A psicóloga social Anne Wilson, em entrevista à BBC Worklife, explica esse fenômeno: “Trabalhos como ‘cirurgião’ implicam educação avançada e status econômico, e vêm com essa carga simbólica que define a pessoa".
Quando repetimos histórias e situações do trabalho em conversas cotidianas, muitas vezes estamos reafirmando esse papel - seja por orgulho, seja pela dificuldade de nos dissociarmos emocionalmente da “etiqueta profissional”.
A reportagem do Los Andes cita um estudo revelado pela CNBC, conduzido pela socióloga Jennifer Gunsaullus, que investigou a percepção sobre pessoas que falam constantemente sobre o próprio estresse no trabalho. A conclusão: quem faz isso tende a ser visto como menos competente e menos empático.
Segundo a pesquisa, essa exposição exagerada cria uma barreira relacional, porque transmite a ideia de que a pessoa só consegue se conectar com o outro a partir do “trauma laboral”. A especialista acrescenta ainda: “Parece egocêntrico, como se dissessem ‘você não entende…’. O que transmitem é que não conseguem manejar seu estresse e não têm agência sobre a própria vida".
Esse comportamento se relaciona com o conceito de toxic productivity - ou produtividade tóxica - no qual o sobretrabalho vira espécie de prova de valor pessoal. Em muitos ambientes profissionais, ser visto como sempre ocupado funciona como sinal de dedicação extrema. Mas essa “visibilidade” também pode levar ao isolamento social.
O texto original do Los Andes lista três possíveis interpretações psicológicas para quem não consegue parar de falar sobre trabalho:
• Busca de identidade: quando a profissão ocupa espaço demais na mente, pode ser uma tentativa constante de reafirmar quem somos.
• Barreiras relacionais: a exposição exagerada à rotina profissional pode nos distanciar emocionalmente dos outros.
• Estresse persistente: a incapacidade de desconectar ou de pensar em outros assuntos pode indicar sinais de esgotamento mental.
Falar sobre trabalho é natural - e muitas vezes inevitável. Mas, segundo os especialistas consultados pelas reportagens originais, vale ficar atento quando:
- não há espaço para outros temas na conversa;
- o assunto surge mesmo em contextos completamente pessoais;
- a narrativa sempre gira em torno de estresse, conflitos ou desgaste;
- outras pessoas começam a evitar o tema (ou você).
Nesse ponto, o hábito pode estar revelando sobrecarga emocional, dificuldade de estabelecer limites e até sintomas iniciais de burnout.