Responder se dá ou não para perdoar uma traição não tem resposta certa. Nem única. Há quem não consiga, quem não queira, quem até tente, mas nunca esqueça. Há quem perdoe e siga em frente, quem perdoe e jogue isso na cara do parceiro todos os dias, e há quem simplesmente não perdoe.
É um dos períodos emocionalmente mais complexos para um casal e, em muitos casos, acaba marcando o fim da relação. Ainda assim, há quem procure a terapia como última tentativa de salvar o vínculo.
Foi exatamente uma situação assim que a psicóloga especializada em relacionamentos e autora do livro “Quiérete bonito”, Paula Orell, compartilhou nas redes sociais. Um casal procurou sua terapia depois que ele havia sido infiel seis meses antes e, agora, repetiu a traição.
O homem dizia estar arrependido, afirmava que queria mudar e fazer tudo diferente. Já ela se sentia decepcionada e presa: uma parte queria dar mais uma chance, enquanto a outra sentia que, ao fazer isso, estaria se traindo.
Nesse caso, o problema não era apenas a infidelidade em si, mas o fato de ele prometer exatamente o mesmo que já havia prometido antes e quebrado novamente.
Segundo Orell, “neste momento é impossível saber se você vai conseguir perdoá-lo ou não. O que dá para decidir agora é se você quer tentar” De acordo com um estudo de 2025 da Diversual, 28,9% das pessoas que tiveram um relacionamento estável admitem já ter sido infiéis ao menos uma vez. E traição não se resume apenas a sexo com outra pessoa.
Uma pesquisa recente do Centro de Investigações Sociológicas (CIS) mostrou que, para 64,5% dos espanhóis, manter conversas de cunho sexual por mensagens, redes sociais ou telefone já configura infidelidade. Existe também a chamada traição emocional, quando, mesmo sem envolvimento físico, a conexão com outra pessoa é sentida como uma quebra de confiança.
Para cada indivíduo, a infidelidade tem um peso e um significado diferentes. Não é melhor nem pior, apenas distinto. Como explica Orell, quando isso acontece, “é tão legítimo decidir terminar quanto escolher continuar na relação”.
E mesmo quando o casal tenta, pode ser que não dê certo. “Não se trata apenas de tomar uma decisão, mas de construir um caminho de reparação”, afirma a especialista.
Esse caminho de reconstrução, segundo Orell, não é responsabilidade apenas de quem traiu, mas dos dois. “Da sua parte, é essencial conversar consigo mesma e se perguntar o que você precisa dele para que essa relação possa ser reparada, sem que isso signifique abrir mão da sua dignidade.” Também é importante refletir sobre o que você precisa de si mesma para que escolher o outro “não signifique deixar de se escolher”.
Dar uma nova chance ao relacionamento não pode implicar abandono do próprio cuidado emocional. Escolher continuar não deve significar se anular.
Já para quem traiu, o trabalho também é grande. “Quando ela disser o que precisa para tentar reconstruir a relação, você terá que avaliar se está realmente disposto não só a dizer que sim para recuperá-la, mas a se comprometer de verdade e cumprir”, explica Orell. Ambos precisam se perguntar se querem e se conseguem fazer o esforço necessário para curar algo que foi quebrado.
As traições costumam deixar marcas silenciosas, porque a confiança se rompe e nem sempre é possível reconstruí-la. A psicóloga Celia Betrián Roca explica que a pessoa traída, além de se sentir enganada, enfrenta dificuldades para voltar a confiar. Surgem sentimentos como culpa, ciúmes da terceira pessoa e medo do abandono, o que muitas vezes mantém relações já fragilizadas.
Seguir no relacionamento pode até parecer mais simples. Difícil mesmo é trabalhar o perdão e percorrer esse longo caminho de reparação. Conseguir ou não depende apenas do casal.