Já faz um mês que fui assistir a “Hamnet”, e poucos dias após a estreia eu já tinha me rendido ao coro de elogios que tomou conta das redes e das críticas. Saí da sala de cinema perto da minha casa com a sensação de ter visto um daqueles filmes que marcam. Não parecia haver uma única pessoa no cinema que não estivesse emocionada.
Jessie Buckley, no papel de Agnes, foi uma verdadeira revelação para mim. Ao mesmo tempo, Paul Mescal convence como William Shakespeare, enquanto Joe Alwyn interpreta o filho do casal, o sensível e inesquecível Hamnet.
Mas, no meio de tantas atuações marcantes, um detalhe da caracterização de Mescal não saiu da minha cabeça durante todo o filme: o brinco que ele usa na orelha. Não parecia um erro histórico, mas a dúvida ficou martelando: será que Shakespeare realmente usava brinco?
Assim que cheguei em casa, resolvi pesquisar. A primeira hipótese era simples: talvez fosse uma licença estética da produção, algo pensado apenas para compor o visual do personagem. Mas a surpresa veio rápido. Ao que tudo indica, Shakespeare realmente usava um brinco muito parecido com o mostrado no filme. Ou seja, aquilo que parece moderno na verdade tem raízes históricas.
Essa informação aparece nos poucos retratos conhecidos do dramaturgo. Um exemplo é o quadro associado a Sir Walter Raleigh, de 1588, no qual ele aparece usando uma pérola na orelha. Outro registro famoso é o Retrato Chandos, pintado por volta de 1600 e atribuído a John Taylor, onde Shakespeare surge com um brinco na orelha esquerda. Essa pintura, aliás, é considerada por muitos historiadores uma das representações mais fiéis da aparência do escritor.
Pode parecer surpreendente hoje, mas homens usando brincos no início do século XVII não eram raridade. Na verdade, o acessório funcionava como um claro símbolo de status social. Quem podia usar um brinco de ouro naquela época demonstrava, automaticamente, certa posição econômica e prestígio. Era um sinal visível de que aquela pessoa tinha recursos.
Mas o significado não era apenas financeiro. Intelectuais, artistas e figuras boêmias também adotavam o acessório, muitas vezes como uma forma de expressar identidade e estilo. Dentro desse contexto, não é difícil imaginar Shakespeare aderindo à tendência da época, incorporando esse detalhe ao seu visual.
Todo esse cuidado com figurinos e vestimentas em “Hamnet” mostra o nível de atenção da equipe de produção. Cada peça parece escolhida com precisão histórica, até mesmo um detalhe aparentemente pequeno como o brinco.
E o reconhecimento veio. A figurinista Malgosia Turzanska recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino pelo trabalho no filme. A disputa, no entanto, promete ser difícil, já que os concorrentes incluem produções de grande porte como “Avatar”, “Frankenstein”, “Marty Supreme” e “Pecadores”.
Agora resta esperar até domingo (15) a grande cerimônia para descobrir quem levará a estatueta. Mas uma coisa já ficou clara: em “Hamnet”, até os menores detalhes contam uma história.
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