Eu sou especialista em doramas e já perdi as contas de quantas séries coreanas assisti ao longo dos últimos anos. Do romance ao mistério e supense, eu emendo uma série atrás da outra, mas já tive uma sensação muito específica maratonando diversos títulos: o de estar preso em uma sala sem janela, sufocado e com o desejo de respirar ar puro.
Sabe quando tudo parece travado, ninguém fala o que precisa falar, ninguém faz o que precisa fazer, e você só pensa "pelo amor de Deus... reage"? Pois é. Eu achava que isso era só um jeito dramático meu de descrever a frustração ao assistir alguns k-dramas, mas o mais curioso de tudo isso vem a seguir.
Rondando alguns fóruns e quizzes de sites internacionais, eu descobri que, na Coreia, existe uma metáfora perfeita para esse momento e ela envolve... batata-doce. Sim, a batata-doce - e isso não tem nada a ver com os maravilhosos pratos coreanos ou as dietas dos atores e atrizes de k-dramas.
E o mais engraçado é que eu já escrevi mais de 600 artigos sobre doramas aqui no Purepeople e só fui trombar com essa conexão agora. Esse é o tipo de descoberta que faz a gente rir de si mesmo e, ao mesmo tempo, querer sair contando pra todo mundo.
Em coreano, batata-doce é goguma (고구마). E, lá na Coreia, esse termo é usado pelas dorameiras como a definição de um tipo específico de emoção que a ficção provoca. A explicação é simples e genial: quem já comeu batata-doce sem beber nada junto sabe que ela pode dar aquela sensação meio seca, meio "travada" na garganta que dá um incômodo e nos deixa com uma vontade imediata de acabar com isso.
Nos doramas, "goguma", - para nós "batata-doce" - virou o apelido perfeito para episódios e situações que deixam o público sufocado de nervoso. É quando o roteiro insiste em injustiças com a protagonista, quando tudo anda devagar demais, quando os personagens parecem caminhar em círculos e você começa a implorar por uma atitude. É a famosa frustração sem solução.
Sabe aquela sequência em que o vilão pisa, humilha, manipula e ninguém faz nada? Ou quando o casal se gosta e todo mundo sabe, até o cachorro, mas eles seguem se desentendendo por três episódios? Isso é uma "batata-doce" com força. E a sensação é exatamente a de assistir com vontade de "destravar" a história.
Do outro lado dessa história tem a sidra, chamada de saida (사이다), uma bebida fermentada a partir da maçã. E aqui entra o alívio, já que a sidra refresca, limpa a garganta e dá aquela sensação imediata de "ufa" quando a batata-doce está presa em nossa garganta. Na Coreia, o momento "saida" - "sidra" para nós - é quando finalmente acontece aquilo que o espectador estava esperando pra respirar em paz.
É a cena em que alguém se impõe, coloca limites, devolve uma humilhação, expõe uma mentira na hora certa, resolve um conflito que estava sufocando há tempo. Não precisa ser aquela vingança grandiosa que coloca um ponto final no plot, mas, às vezes, é só uma frase bem dita, no timing certo, que faz o público sentir que a justiça voltou a reinar naquele universo.
E eu estou amando esse conceito, porque ele explica uma coisa que a gente sente e nem sempre sabe traduzir: o prazer de ver a história recompensar a nossa paciência.
Escrever sobre doramas é o meu trabalho, mas também um dos grandes prazeres da minha vida pessoal. Eu demorei demais para descobrir isso, e agora só consigo pensar em quantas vezes eu descrevi exatamente essa sensação sem ter a palavra certa, pelo menos nos termos coreanos.
Das próximas vezes, vou me certificar de, em vez de dizer "esse dorama é irritante", vou explicar mais ou menos assim: "ele é bem batata-doce, mas entrega uma boa sidra no final". É outra conversa e que só os inteligentes entenderão - e que eu amei compartilhar com você.