Quem nunca segurou o riso diante de alguém que tropeçou, falou alguma coisa errada ou passou por uma situação inesperada?
A reação pode parecer cruel à primeira vista, mas a psicologia mostra que existe uma explicação bem mais complexa por trás daquele sorriso que surge quase sem pedir licença.
Até a saudosa atriz Nair Bello já contou uma situação curiosa que ajuda a entender esse comportamento. Em uma participação no extinto 'Programa do Jô', a veterana revelou que não conseguiu controlar o riso durante um velório após uma gafe entre as pessoas presentes.
Segundo ela, a reação simplesmente aconteceu de forma espontânea, sem que tivesse planejado ou desejado rir naquele momento.
A história, que pode causar estranhamento, mostra como determinadas respostas emocionais nem sempre estão completamente sob nosso controle.
De acordo com a psicóloga Olga Albaladejo, em entrevista ao Cuerpomente, rir ou sentir satisfação diante do erro, do azar ou de uma situação negativa vivida por outra pessoa é mais comum do que imaginamos.
Existe, inclusive, uma palavra em alemão para descrever esse sentimento: schadenfreude, que pode ser entendido como o prazer, a satisfação ou até o alívio que uma pessoa sente diante do infortúnio alheio.
Olga Albaladejo explica que o nosso lugar no mundo também pode ser determinado por avaliações que fazemos em ambientes em que estamos inseridos, como família, amizades, trabalho e outros grupos.
É nesse contexto que aparecem dois tipos de comparação social: a ascendente e a descendente.
A comparação ascendente acontece quando olhamos para alguém que consideramos estar em uma posição melhor do que a nossa em algum aspecto importante. Essa observação pode ser positiva e servir de inspiração, mas também pode despertar insegurança, sensação de inferioridade ou até uma percepção de ameaça.
Já a comparação descendente acontece quando observamos alguém que consideramos estar em uma situação menos favorável. Nesse caso, a reação pode ajudar a colocar nossas próprias dificuldades em perspectiva e recuperar, ainda que temporariamente, uma sensação de segurança.
É justamente nesse segundo movimento que pode aparecer a satisfação diante do erro de outra pessoa. Se alguém que admiramos passa por um momento de fracasso, aquilo pode produzir uma espécie de alívio interno.
Mas então é errado sorrir quando alguém fracassa? Não necessariamente. A psicóloga chama atenção para uma diferença importante entre sentir uma emoção e escolher o que fazer com ela.
“Sentir uma emoção não significa escolhê-la, aprová-la ou agir de acordo com ela”, explica Olga.
Ou seja, o surgimento espontâneo de um sorriso ou de uma sensação de satisfação não determina automaticamente o caráter de uma pessoa.
Uma pessoa pode perceber que achou engraçada uma situação, identificar o que sentiu e, ainda assim, escolher não humilhar quem errou, não aumentar seu constrangimento e não transformar aquele momento em motivo de crueldade.
Por fim, a comparação pode ser transformada em informação. Em vez de usar o erro alheio apenas para se sentir superior, podemos observar o que aquela reação revela sobre nós mesmos.