É hora de ir ao supermercado e você decide conferir a lista de compras.
Independentemente de ter registrado os itens no smartphone ou no bom e velho papel, você provavelmente não terá problemas para fazer as compras do mês. A escolha entre um meio e outro, porém, pode influenciar a maneira como seu cérebro registra e recupera aquelas informações.
Embora uma lista de compras não seja necessariamente algo que precisamos memorizar por um longo período, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Tóquio em parceria com o NTT Data Institute of Management Consulting, publicado em 2021, constatou algo interessante sobre o uso do papel.
Segundo a pesquisa, realizada com 48 voluntários japoneses, com idades entre 18 e 29 anos, os participantes que anotaram compromissos em uma agenda de papel apresentaram maior ativação em áreas cerebrais relacionadas à memória, à linguagem e à visualização mental ao tentar recordá-los uma hora depois, em comparação com aqueles que utilizaram tablet ou smartphone.
Na prática, os resultados sugerem que fazer as anotações no papel favoreceu um registro mais rico das informações.
Isso não significa, entretanto, que o grupo tenha se saído melhor em todas as etapas: considerando o teste de memória completo, não houve diferença significativa de desempenho entre os participantes. A vantagem do papel na precisão apareceu apenas nas perguntas mais simples.
Os autores levantaram a hipótese de que o papel fornece pistas espaciais e táteis mais variadas. A posição fixa de uma anotação, o formato irregular da escrita, as margens e outras particularidades podem formar uma representação mental mais detalhada.
Nos dispositivos digitais, a disposição tende a ser mais uniforme e pode mudar conforme a pessoa rola a tela. Já no papel, é possível se lembrar de que determinada palavra estava no alto da página, escrita em uma cor diferente ou próxima de alguma marca específica.
Os participantes que usaram a agenda de papel também terminaram a tarefa mais rapidamente. Eles levaram cerca de 11 minutos para registrar os compromissos, enquanto os usuários de tablet precisaram de aproximadamente 14 minutos e os de smartphone, 16.
Fora das condições controladas de uma pesquisa, existe ainda outra diferença importante. Ao abrir o celular para escrever uma lista, podemos encontrar notificações, mensagens, redes sociais e outros aplicativos disputando nossa atenção.
Essas interrupções não foram avaliadas pelo estudo da Universidade de Tóquio. Ainda assim, no cotidiano, elas podem desviar o foco daquilo que está sendo anotado. Quando a atenção é dividida entre diferentes estímulos, o cérebro pode ter mais dificuldade para processar e fixar o conteúdo.
O papel, por sua vez, costuma oferecer uma experiência mais concentrada. Sem alertas aparecendo na tela ou a possibilidade de mudar de aplicativo com um toque, fica mais fácil direcionar a atenção apenas para a informação registrada.
Portanto, preferir uma lista de compras de papel não significa rejeitar a tecnologia ou estar preso ao passado. Pode ser apenas uma maneira de reduzir distrações e oferecer ao cérebro mais referências visuais, espaciais e táteis para reencontrar uma informação quando ela for necessária.