'Quem Ama Cuida' começou com a premissa de vingança de Adriana (Letícia Colin) contra a família Brandão após ser injustiçada e condenada pela morte de Arthur (Antonio Fagundes).
A história, em si, mesmo repetida diversas vezes na teledramaturgia, chamou a atenção do público. Afinal de contas, uma boa dose de justiça não faz mal a ninguém, diga Nina (Debora Falabella) em 'Avenida Brasil'.
No atual folhetim das nove da Globo, a fisioterapeuta passou anos presa injustamente, perdeu a carreira, foi afastada da família e alimentou, durante todo esse tempo, o desejo de fazer seus inimigos pagarem pelo que fizeram.
A novela, inclusive, foi comparada desde o início com a trajetória de Clara (Bianca Bin) em 'O Outro Lado do Paraíso' (2017), outro grande sucesso do autor.
No entanto, apesar da boa audiência e dos elogios à trama, alguns detalhes do roteiro impedem que a vingança de Adriana tenha o mesmo peso dramático esperado.
O primeiro deles é justamente a postura da protagonista. Por mais que Adriana tenha deixado claro, ainda na cadeia, que sobrevivia alimentando o desejo de se vingar, sua volta à liberdade transmite pouca urgência.
Em vez de uma mulher consumida pela sede de justiça, ela parece aceitar passivamente boa parte das humilhações. Pilar (Isabel Teixeira) conseguiu fazê-la perder o emprego, Bruna (Nanda Marques) foi até sua casa tirar satisfações e provocou um escândalo, enquanto a sociedade continua a tratá-la como ex-detenta. Ainda assim, falta à personagem aquele 'sangue nos olhos' que faria o público vibrar a cada reação.
Outro ponto é a ausência de um planejamento claro da vingança. Um recurso clássico em histórias desse tipo seria mostrar Adriana organizando seus próximos passos.
Em seu quarto poderia haver um mural com fotografias, recortes de jornal e uma lista das pessoas que pretende atingir, estabelecendo uma ordem para cada acerto de contas.
Isso ajudaria a criar expectativa e faria o telespectador acompanhar cada etapa do plano. Tudo indica que Pilar será o alvo final, e provavelmente o mais difícil, mas essa construção praticamente não existe.
Por fim, as próprias vinganças ainda parecem pouco eficientes. Um dos melhores exemplos foi quando Adriana invadiu uma palestra de Ademir para tentar desmoralizá-lo.
Na prática, quem acabou saindo como desequilibrada foi ela. O advogado não sofreu consequências, não perdeu prestígio, não foi alvo de manchetes nem viu sua reputação ser abalada. O golpe simplesmente não teve impacto dramático.
É impossível não lembrar de Clara, em 'O Outro Lado do Paraíso', cuja volta triunfal ficou marcada pela frase "É um prazer estar de volta", transformada em meme e lembrada até hoje.
A personagem tinha estratégia, planejamento e fazia cada adversário cair no momento certo. Em 'Quem Ama Cuida', essa sensação de controle ainda não apareceu.
Vale destacar que essa análise não passa pela atuação de Letícia Colin, que, sempre entregou e segue entregando o melhor em todos os seus trabalhos, a questão está na condução do roteiro.
A novela continua forte, conquistando boa audiência e personagens carismáticos, mas pequenos ajustes na construção da vingança poderiam tornar a jornada de Adriana muito mais envolvente — e, principalmente, muito mais saborosa de acompanhar.