Conhecido pelo temperamento explosivo no “Pesadelo na Cozinha” e pelas broncas icônicas no “MasterChef Brasil”, Érick Jacquin fala de gastronomia com a propriedade de quem construiu um império entre restaurantes premiados, TV e negócios milionários. Mas a trajetória do chef francês carrega uma cicatriz que ele nunca fez questão de esconder: a falência dolorosa do antigo Le Brasserie, em São Paulo.
Anos após ver seu mundo desabar financeiramente, Jacquin tirou dali a lição mais valiosa da sua vida. Em um papo sincero com o Notícias da TV, em fevereiro de 2025, o jurado do “MasterChef” resumiu esse aprendizado em um mantra curto e grosso: “É preciso respeitar e obedecer o dinheiro. Eu aprendi a obedecer”.
A frase veio justamente durante o lançamento de mais uma temporada do “Pesadelo na Cozinha”, reality onde ele resgata restaurantes à beira do abismo. Ou seja, quando Jacquin puxa a orelha de um comerciante devedor, ele não fala apenas como um empresário de sucesso, mas como alguém que já sentiu na pele a dor de quebrar!
Bem antes de virar esse fenômeno da televisão, Jacquin enfrentou o pior momento de sua carreira com as portas fechadas do Le Brasserie, um sofisticado restaurante francês que comandou por sete anos no Itaim Bibi, zona nobre da capital paulista.
O chef nunca fugiu do assunto e já desabafou várias vezes sobre o peso emocional e financeiro daquele fechamento. Em 2017, num episódio marcante do “Pesadelo na Cozinha”, ele abriu o coração sobre a luta para manter a casa aberta enquanto os custos engoliam o faturamento.
“Fechei porque não tinha clientes o suficiente. Tudo subiu: aluguel subiu e foi para R$ 60 mil por mês. Decidi fechar antes que começassem a falar que a comida era ruim”, contou na ocasião.
A conta, claro, foi astronômica. Em 2013, o restaurante operava com uma estrutura pesada de mais de 90 funcionários, o que transformou as rescisões e dívidas em uma bola de neve. “Eu já chorei, já xinguei e estou pagando ainda”, desabafou o chef.
Na entrevista ao Notícias da TV, Jacquin tocou na ferida de forma ainda mais íntima. Ele relembrou como a falência mudou não só sua conta bancária, mas o comportamento das pessoas ao seu redor.
“Quando a gente começou o ‘Pesadelo’, uma pessoa chegou e falou: ‘Jacquin, como você pode fazer isso se você quebrou?’. E é verdade, eu quebrei, eu passei por essa fase. Eu quebrei muito feio”, declarou.
O tombo também isolou o cozinheiro, afetando em cheio sua vida social e a autoestima na época. “O telefone para de tocar, você fica com poucos amigos. Muita gente pensa: ‘Se ferrou, bem feito’. Fiquei com vergonha porque eu estava devendo”, afirmou.
Em vez de esconder o passado debaixo do tapete, Jacquin usou o trauma a seu favor. Para ele, os erros do passado se transformaram no combustível que dá autoridade aos seus julgamentos na TV. “Só quem tem experiência pode tentar ajudar os outros”.
A grande virada de chave aconteceu em 2014, quando a Band cruzou o seu caminho. Ao Notícias da TV, Jacquin recordou que estava no limbo, sem restaurante e sem rumo, quando recebeu o convite para o "MasterChef". “Ninguém me ajudou. Quem me ajudou foi a TV”, disparou.
O sucesso estrondoso do programa foi o oxigênio que ele precisava para limpar seu nome, voltar ao mercado e reconstruir sua reputação gastronômica. “Graças ao MasterChef eu dei a volta por cima, consegui pagar minhas dívidas. Ainda tenho [dívidas], mas quem não tem?”, pontuou.
Hoje, a realidade é outra. Jacquin dá as cartas em um verdadeiro império em São Paulo, comandando casas badaladas como o Président, o Ça-Va, o Lvtetia, o Steak Bife e o Jojo (focado em peixes e frutos do mar).
Mesmo nadando em águas calmas novamente, a cicatriz da crise virou escola. Para o chef, a maior herança daquela tempestade foi aprender a olhar para a gestão com outros olhos. “Os restaurantes têm problema, mas quem não tem hoje? É muito complicado. É preciso respeitar e obedecer o dinheiro. Eu aprendi a obedecer”, concluiu.