Ao longo da vida, todos nós enfrentamos mudanças. Desde um novo emprego até um término de relacionamento ou uma mudança de casa, por exemplo. As crianças também passam por mudanças, apesar da pouca idade, e a adaptação a elas será fundamental para desenvolver sua resiliência no futuro. Uma dessas mudanças é a transição da pré-escola para o ensino fundamental, quando as crianças completam seis anos.
Nerea Riveiro González, educadora infantil e especializada em dificuldades de aprendizagem, altas habilidades e TDAH, e autora do livro "Como Estimular a Atenção em Crianças", explicou que "as mudanças nas fases de desenvolvimento são difíceis para todos" e, neste caso, são difíceis tanto para as crianças quanto para os pais.
"Às vezes, na tentativa de ajudar, enviamos mensagens carregadas de responsabilidade", explicou ela em uma de suas postagens nas redes sociais. Como especialista, há certas expressões que ela não usaria porque "sem perceber, transformamos 'Vou para a escola para me divertir' em 'Vou para a escola para fazer coisas chatas'".
Uma das expressões mais comuns é dizer às crianças que elas já cresceram e que por isso vão para a "escola grande", mas Riveiro afirma que é melhor não fazer isso durante essa transição. "Dizer constantemente às crianças que elas 'já cresceram' coloca sobre seus ombros uma responsabilidade que ainda não lhes pertence", explica. "Elas precisam aprender, aos poucos, o que cada etapa significa, se adaptar e vivenciá-la por si mesmas."
Outra expressão a ser evitada, segundo a educadora, é a palavra "lição de casa". A especialista afirma que não diria às crianças que terão lição de casa porque "a palavra 'lição de casa' tem uma conotação negativa inerente e não é algo que elas devam saber antes de começarem as aulas. O ideal é que elas se adaptem gradualmente ao que os professores dizem", declara.
Quando lhes dizemos que terão lição de casa antes mesmo do início das aulas, estamos atribuindo uma conotação negativa à escola, transmitindo, sem querer, a mensagem de que "o que costumava ser um lugar para se divertir e brincar agora é um lugar para ficar entediado e estudar". Quando deixamos que o tempo e o professor expliquem o que elas farão, "a lição de casa surge naturalmente, sem que elas precisem se preocupar com isso antecipadamente", explica.
Além de evitar essas duas frases, a especialista aconselha que, no ensino fundamental, leiamos histórias com as crianças que abordem essa transição. “Elas continuam sendo uma ferramenta valiosa para ajudá-las com as mudanças, já que vivenciam muitas emoções diferentes ao longo da leitura.
Histórias como "Borboletas na Escola" ou "Luisa Começa a Primeira Série" podem nos ajudar a desvendar todas as novas emoções que elas estão experimentando e a desenvolver a corregulação emocional. Crianças que conseguem gerenciar melhor suas emoções têm maior probabilidade de serem resilientes e superarem dificuldades de forma independente no futuro.”
Assim como é fundamental envolver as crianças nas tarefas domésticas, é igualmente importante envolvê-las nos estudos quando entram no ensino fundamental. Riveiro explica que isso já deveria ser feito nas etapas anteriores, mas, se ainda não foi, agora é um bom momento para começar.
Envolvê-las na escolha do material escolar, roupas, sapatos, mochilas ou no preparo do lanche "dá a elas um senso de responsabilidade, o que as torna mais autoconfiantes e independentes".
Aceitar essas mudanças naturalmente e conversar sobre elas com a compreensão de que a criança tem seis anos garantirá que essa transição seja vivenciada com menos pressão e que, para ela, ir para a escola não seja algo ruim.