Em uma rotina marcada por notificações, compromissos e pela sensação de que sempre existe alguma coisa a ser resolvida, parar pode até provocar culpa. Mas Morgan Freeman enxerga justamente nesses momentos de quietude uma parte importante da vida.
Aos 89 anos, o ator defende que desacelerar não significa deixar de fazer as coisas ou simplesmente assistir ao tempo passar. Para ele, existe valor em não tentar controlar todos os acontecimentos.
"É preciso aprender a ficar quieto e deixar a vida acontecer; essa quietude se transforma em um resplendor", afirmou Freeman.
Em vez de associar uma vida bem vivida à necessidade de estar permanentemente ocupado, Freeman aponta para a importância de observar, ter paciência e aceitar aquilo que acontece no presente.
A ideia defendida pelo astro de "Um Sonho de Liberdade" não deve ser confundida com passividade. A proposta é entender que nem todas as situações exigem uma reação imediata e que também não é possível antecipar ou controlar tudo o que acontece.
Nesse sentido, ficar quieto pode significar simplesmente abrir espaço para experimentar aquilo que normalmente passa despercebido quando estamos preocupados com a próxima tarefa.
Uma caminhada sem destino urgente, uma conversa longa, alguns minutos de silêncio depois de um dia cansativo ou até aceitar que determinada pergunta ainda não tem resposta são exemplos de pausas que também fazem parte da experiência humana.
A reflexão de Freeman ganha ainda mais significado em uma sociedade na qual produtividade e velocidade frequentemente são tratadas como sinônimos de sucesso.
É comum existir a impressão de que sempre deveríamos estar produzindo mais, tomando uma decisão, começando um projeto ou perseguindo um novo objetivo. O resultado é uma rotina em que até os momentos de descanso podem vir acompanhados da sensação de que aquele tempo deveria estar sendo "aproveitado" de outra maneira.
A psicologia e a neurociência, vêm há anos chamando atenção para os impactos de uma rotina marcada pela hiperatividade e pela dificuldade de fazer pausas.
Aceitar que nem todos os aspectos da vida podem ser planejados ou resolvidos imediatamente também pode ajudar a diminuir a pressão provocada pela tentativa constante de manter tudo sob controle.
Essa maneira de enxergar o tempo se aproxima dos princípios do chamado movimento Slow, que ganhou projeção com o escritor Carl Honoré e seu livro "Praise of Slowness".
A proposta não é transformar a lentidão em uma regra nem defender que todas as atividades sejam realizadas devagar. O ponto central está justamente na possibilidade de escolher o ritmo mais adequado para cada momento.
"Ser lento significa controlar o ritmo da sua própria vida. Você decide a que velocidade ir em cada situação. Se hoje quero ir rápido, vou rápido; se amanhã quero ir devagar, vou devagar. Aquilo pelo que lutamos é pelo direito de determinar nosso próprio ritmo", escreveu Honoré.
Em outras palavras, desacelerar não precisa significar abrir mão de ambições ou deixar de produzir. Trata-se de recuperar a possibilidade de decidir quando acelerar e quando diminuir o ritmo, em vez de viver permanentemente submetido à urgência.
No caso de Morgan Freeman, a defesa da quietude acompanha uma trajetória marcada justamente pela longevidade profissional.
Ao longo da carreira, o ator acumulou alguns dos principais reconhecimentos da indústria cinematográfica. Entre eles estão o Oscar conquistado em 2005, além de um Globo de Ouro e de uma homenagem do Sindicato dos Atores.
Freeman também recebeu o Kennedy Center Honors, em 2008, e foi homenageado pelo American Film Institute (AFI) em 2011 pelo conjunto de sua carreira.
Depois de décadas diante das câmeras, sua reflexão sugere que viver bem talvez não dependa apenas da quantidade de coisas realizadas, mas também da capacidade de perceber quando é hora de simplesmente não correr.