Juan López, de Toledo, tem 82 anos, mas está longe da imagem que normalmente fazemos de alguém nessa idade.
Dono de uma força e de uma vitalidade invejáveis, o espanhol — conhecido no mundo do atletismo como "Superlópez" ou "O Queniano de Toledo" — completa maratonas que muitas pessoas bem mais jovens seriam incapazes de terminar.
Sem dúvida, sua história é um exemplo de longevidade ativa, mostrando que chegar aos 80 anos com uma boa forma física não depende apenas da genética. O esforço e a vontade de viver também têm (e muito) a ver com isso.
No ano passado, o corredor do Clube de Atletismo de Toledo completou uma maratona em 3 horas e 39 minutos, conquistando uma medalha de ouro no Campeonato Europeu de Maratona, com um ritmo de 5 minutos e 11 segundos por quilômetro. Mas o caso dele não é único.
Já vimos exemplos como o de uma mulher de Barcelona que também passou dos 80 anos e corre maratonas de 42 km. Uma condição física melhor do que a de muitos homens de 20 e 30 anos
Para tentar entender o que há de especial no corpo de Juan, o toledano foi analisado em um estudo realizado por pesquisadores espanhóis e italianos, conforme explicado pela Fissac. Para isso, Juan foi levado a um laboratório, onde passou por uma série de testes fisiológicos.
As primeiras conclusões desse trabalho foram publicadas na edição de janeiro da revista Frontiers in Physiology e, segundo explica Julián Alcázar, cientista do esporte da Universidade de Castilla-La Mancha e coautor da pesquisa, os resultados obtidos são especialmente surpreendentes e inspiradores.
Os pesquisadores descobriram que esse atleta octogenário tem o maior índice de condicionamento físico já registrado para alguém nessa faixa etária, equivalente ao de um jovem entre 20 e 30 anos. Seus músculos também conseguem utilizar o oxigênio de maneira excepcionalmente eficiente. Mas sua biologia, sua biomecânica e seus treinos são totalmente normais.
A pergunta é: o que torna esse homem tão especial? Afinal, para Juan, o esporte nunca havia sido uma prioridade.
Aos 66 anos, ele tentou começar a correr e, aos poucos, com disciplina e constância, foi aumentando seus objetivos, até que, aos 70, começou a competir. Primeiro nos 800 metros, depois em distâncias mais longas e, por fim, em ultramaratonas. E isso nos faz pensar que nunca é tarde para começar a praticar esportes.
O mais impressionante em seu caso é que, à medida que envelhecia, ele não diminuía seu desempenho; pelo contrário, era capaz de correr mais rápido e completar distâncias cada vez maiores. Os pesquisadores destacam que esse é um comportamento muito pouco comum e, por isso, decidiram analisar em detalhes o que estava por trás desse desempenho.
Para isso, submeteram López García a uma série de testes em laboratório. Avaliaram sua resistência em uma esteira e em uma bicicleta ergométrica, além de medir parâmetros como economia de corrida, consumo máximo de oxigênio, potência, utilização de oxigênio pelos músculos e outros indicadores fisiológicos relacionados ao exercício de alta intensidade.
O estudo também incluiu uma análise de seus hábitos de treinamento e de sua alimentação.
Nem o próprio López García imaginava até onde poderia chegar. Segundo contou aos pesquisadores, quando começou a treinar, seu único objetivo era "correr um pouco para me manter em forma, nunca chegar ao nível que alcancei hoje".
Atualmente, ele percorre cerca de 64 quilômetros por semana quando não está se preparando para nenhuma competição. Nos períodos que antecedem uma prova, essa distância praticamente dobra.
A maior parte de seus treinos consiste em corridas longas em intensidade moderada, embora algumas vezes por semana ele inclua treinos intervalados, alternando trechos muito rápidos, em um ritmo semelhante ou até superior ao de competição, com períodos de recuperação antes de voltar a acelerar. Tudo isso sob a supervisão de um treinador profissional.
López não esconde que se alimenta bem e sem restrições extremas. "Não quero me empanturrar todos os dias, mas normalmente como bem", explicou.
Seu café da manhã, antes dos treinos, tem uma composição simples: "Como uma torrada de pão de barra com azeite de oliva, uma camada de ricota e outra de mel. E tomo uma xícara grande de café com leite e mel".
A isso se soma um hábito que mantém há quatro décadas: o consumo de pólen de abelha. "Há muitos anos tomo pólen, o alimento das abelhas. Coloco uma colher na boca e depois tomo o café da manhã. E às vezes como uma tangerina ou uma banana", contou.
Sobre a origem de seu desempenho, López evita atribuí-lo a um único fator e prefere falar na soma de anos de dedicação constante. "É claro que há muita genética boa em mim, mas também muito treino intenso e diário", afirmou.
Antes de tudo isso, López passou boa parte da vida consertando automóveis. O esporte, naquela época, ficou em segundo plano.
A mudança veio com a aposentadoria, aos 65 anos: primeiro, ele começou a caminhar e completou os cerca de 800 km do Caminho de Santiago em apenas 20 dias. Pouco depois, incentivado por uma das filhas, começou a correr.
"Comecei aos poucos. Depois conheci um grupo de corredores de longa distância de Toledo e foi então que um dos meus amigos, Ricardo Ortega — que sempre foi meu médico e hoje é meu treinador —, me disse que meu ritmo estava entre os quatro ou cinco melhores da Espanha para a minha idade", contou à revista Fissac.
A partir daí, veio a filiação à federação e, aos 70 anos, sua primeira competição de cross country, em Mérida, já com o título de campeão espanhol.
Em 2019, aos 75 anos, viajou para o Mundial de Torun, na Polônia, e voltou com quatro medalhas de ouro em sua categoria: nos 3.000 metros em pista coberta, no cross country, nos 10 quilômetros de rua — com direito a recorde espanhol, com 42 minutos e 32 segundos — e na meia maratona.
Desde então, os títulos não pararam de se acumular, a ponto de ele se tornar uma referência do atletismo máster europeu.
Em 2024, foi campeão europeu de maratona na categoria M80 e, em 2025, bateu o recorde mundial dos 50 quilômetros em sua categoria no Campeonato Espanhol Máster realizado em Málaga.