A classificação dramática da Argentina para as quartas de final da Copa do Mundo de 2026 acabou ofuscada por uma polêmica que extrapolou o futebol. Durante a vitória por 3 a 2 sobre o Egito, nesta terça-feira (7), pelas oitavas de final, o técnico egípcio Hossam Hassan fez o gesto oficial criado pela FIFA para denunciar casos de racismo em campo.
Poucos segundos depois, porém, o treinador recebeu cartão amarelo do árbitro francês François Letexier, sem que o protocolo fosse iniciado de forma visível, provocando uma onda de indignação nas redes sociais.
O episódio acontece apenas quatro dias depois de a própria FIFA confirmar a abertura de uma investigação sobre um possível caso de racismo envolvendo torcedores argentinos e o influenciador americano IShowSpeed durante a partida entre Argentina e Cabo Verde, pela fase anterior do Mundial.
Além da impressionante virada argentina, que transformou uma derrota por 2 a 0 em uma vitória por 3 a 2 nos minutos finais, um lance fora da bola passou a dominar a internet após o apito final.
Nos momentos decisivos da partida, Hossam Hassan apareceu à beira do gramado cruzando os braços na altura do peito, formando um "X". O gesto chamou imediatamente a atenção porque faz parte do novo protocolo antirracismo da FIFA, adotado oficialmente para a Copa do Mundo de 2026.
Logo após a sinalização, o treinador egípcio foi advertido com cartão amarelo por reclamação. A arbitragem não interrompeu a partida e também não houve qualquer anúncio público indicando o acionamento do protocolo previsto pela entidade.
Até o momento, a FIFA não informou oficialmente se o gesto foi interpretado como uma denúncia formal de racismo, nem esclareceu quais circunstâncias motivaram a advertência ao treinador.
O gesto antirracista da FIFA consiste em cruzar os braços na altura do peito, formando um "X" com as mãos. Aprovado durante o 74º Congresso da FIFA, realizado em Bangcoc, na Tailândia, em maio de 2024, ele se tornou o sinal oficial para que jogadores, árbitros e integrantes das comissões técnicas denunciem casos de racismo ou qualquer outro tipo de discriminação diretamente dentro de campo.
A medida faz parte de um conjunto de ações adotadas pela entidade para padronizar a resposta a episódios de abuso durante as partidas.
Ao identificar a sinalização, o árbitro pode acionar o chamado protocolo de três etapas da FIFA. A primeira prevê a interrupção temporária da partida, acompanhada de anúncios no estádio para que os atos discriminatórios cessem. Caso os abusos persistam, o jogo pode ser suspenso e os atletas encaminhados aos vestiários.
Em situações extremas, se as manifestações continuarem, o árbitro tem autoridade para encerrar definitivamente a partida. O protocolo também determina que o episódio seja registrado para posterior análise e eventual abertura de procedimento disciplinar. As diretrizes da entidade, porém, não estabelecem que um jogador ou integrante da comissão técnica deva receber cartão amarelo por utilizar o gesto.
Apesar da repercussão mundial, não há confirmação oficial de que um caso de racismo tenha ocorrido durante Argentina x Egito.
Até a publicação desta matéria, a FIFA não havia informado: quem teria sido a suposta vítima; quem seria o autor da eventual ofensa; qual foi exatamente o motivo que levou Hossam Hassan a utilizar o gesto; se foi aberto algum procedimento disciplinar referente à partida das oitavas de final.
A própria entidade também não explicou por que o treinador acabou advertido com cartão amarelo logo após fazer a sinalização.
A cena rapidamente viralizou no X (antigo Twitter) e dividiu opiniões entre torcedores. Muitos internautas entenderam que o treinador egípcio tentava denunciar um episódio de racismo e criticaram o fato de ele ter recebido cartão amarelo. "O técnico do Egito sinalizou duas vezes por racismo explícito e o juiz, além de ignorar, numa delas ainda deu cartão", escreveu uma usuária.
Outro perfil afirmou: "Argentinos sendo racistas. Nenhuma novidade". "Sempre a mesma história", concordou mais alguém.
Em contrapartida, diversos usuários defenderam que o gesto não tinha relação com racismo. Segundo essa interpretação, Hossam Hassan estaria protestando contra a arbitragem ou pedindo a anulação de um lance da partida.
"O técnico do Egito estava fazendo esse gesto pedindo anulação do gol. Na verdade, estava chamando o juiz de ladrão, semelhante ao gesto que Mourinho já fez. Não era o protocolo antirracista", publicou um internauta. Outro escreveu: "Não foi de racismo. Ele fez o mesmo gesto no gol anulado. Deve ser uma forma de falar em roubo".
Na partida entre Argentina e Cabo Verde, válida pela segunda fase da Copa, o influenciador americano IShowSpeed, de 21 anos, assistiu ao jogo usando a camisa da seleção africana e apareceu em vídeos publicados nas redes sociais sendo hostilizado por torcedores argentinos.
Após a repercussão das imagens, a FIFA confirmou ao ge que abriu uma investigação para apurar um possível caso de racismo. Em nota oficial, a entidade declarou: "A FIFA condena veementemente o racismo, o ódio e a discriminação em todas as suas formas. Essas atitudes não têm lugar no futebol, na Copa do Mundo da FIFA ou em qualquer parte da sociedade".
O comunicado também afirma que o órgão tomou conhecimento do incidente envolvendo IShowSpeed durante o jogo realizado em Miami, no dia 3 de julho, e iniciou imediatamente uma investigação.