Yasmine Liénard, psicoterapeuta: 'Se os pais demonstram algum tipo de abandono, é porque não foram elogiados durante a infância. E, então, eles reproduzirão isso com o próprio filho'
Publicado em 7 de outubro de 2026 às 20:50
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Por Luiz Eugênio de Castro | Reality show, redes sociais e TV
Leonino apaixonado por entretenimento e cultura pop! Filho legítimo de Britney Spears e obcecado pela Anitta, claro!
Psicoterapeuta explica como a falta de atenção e elogios na infância pode afetar a autoestima e até influenciar a forma como os filhos se relacionam com os próprios filhos no futuro
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A relação entre pais e filhos pode deixar marcas profundas, inclusive na vida adulta. Um exemplo que chamou atenção recentemente envolve a apresentadora Angélica e seu pai, Francisco Ksyvicks, que mantêm uma relação próxima. O assunto veio à tona em meio a uma disputa judicial envolvendo um ex-cuidador do pai da apresentadora...

Mas, para além das questões familiares, especialistas em criação destacam como aquilo que vivemos na infância pode influenciar a maneira como nos relacionamos com os outros ao longo da vida.

'Estímulo dos pais mostra que estão atentos e entusiasmados com as conquistas dos filhos'

Tudo o que fazemos como pais influencia nossos filhos, para o bem e para o mal. É algo defendido por psicólogos e especialistas em criação. Nos primeiros seis anos de vida, adquirimos 80% dos aprendizados emocionais que vamos reproduzir na idade adulta. É durante a infância que acontece uma primeira etapa importante do desenvolvimento emocional, na qual as crianças aprendem a reconhecer e expressar o que sentem. 

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Elas começam a dar nome às emoções e identificá-las, enquanto também desenvolvem a capacidade de regulá-las - processo no qual os pais podem contribuir por meio da corregulação. Segundo a Dra. Yasmine Liénard, psicoterapeuta cognitivo-comportamental, demonstrar atenção às crianças é fundamental para seu desenvolvimento emocional. 

Os estímulos que recebemos na infância, inclusive por meio dos elogios, são importantes para desenvolver confiança e autoestima. “O estímulo dos pais mostra que eles estão atentos e entusiasmados com as conquistas dos filhos”, explica Liénard. Isso é importante porque incentivar o progresso de uma criança a estimula e a encoraja a continuar se esforçando e a fazer melhor no futuro.

E o que acontece quando isso não ocorre? As crianças podem crescer com carências afetivas e desenvolver a sensação de abandono ou de falta de interesse por parte dos pais. A especialista afirma que “se os pais podem demonstrar certo tipo de abandono, é porque eles próprios não foram incentivados nem elogiados durante a infância. Depois, reproduzirão esses comportamentos com os próprios filhos”.

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Também é possível que os pais estejam enfrentando problemas psicológicos, como depressão ou estresse intenso, que dificultem sua capacidade de “se alegrar ou se entusiasmar com aquilo que a criança consegue fazer”. Seja qual for a razão, a tendência é que esse padrão de abandono possa ser repetido na relação com os próprios filhos quando eles se tornam adultos.

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Segundo a psicóloga Ana María Ángel Esteban, todas as carências afetivas vividas na infância podem se manifestar em forma de baixa autoestima, insegurança, uma percepção distorcida de si mesmo, dificuldade para lidar com situações e problemas de adaptação ao ambiente.

Isso também pode contribuir para relações de dependência emocional, medo da solidão e dificuldade para confiar nos sentimentos das outras pessoas. É impossível - e nem seria saudável - elogiar uma criança o tempo todo para evitar esses problemas. Crianças também erram, e elogiá-las constantemente poderia levar a uma supervalorização. Isso, porém, não significa que os elogios devam desaparecer.

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Quando nunca elogiamos uma criança, retiramos dela um estímulo importante para seu desenvolvimento, o que pode contribuir para uma carência emocional. Como em tantas coisas na vida, o segredo está no equilíbrio. Dizer às crianças o que elas fazem bem pode ajudá-las a continuar crescendo e desenvolvendo confiança. Mas isso não significa repetir “muito bem” o tempo todo.

Na verdade, dizer apenas “muito bem” pode não ser tão positivo quanto parece. O método Montessori defende substituir o elogio avaliativo - aquele simples “muito bem” - pelo chamado elogio descritivo. A professora de educação Rheta DeVries chama o elogio avaliativo de “controle com cobertura de açúcar”. Em seu livro Moral Classrooms, Moral Children, ela descreve esse tipo de recompensa como uma forma de “controle por meio da sedução”.

Por exemplo: se digo “tire boas notas e eu compro um videogame” ou simplesmente elogio uma atitude com um “muito bem”, estou usando meu poder para fazer a criança obedecer. Estou pegando algo de que ela precisa - como minha aprovação - e transformando isso em uma ferramenta de manipulação.

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Esses elogios não necessariamente aumentam a autoestima da criança. Pelo contrário, podem aumentar sua dependência emocional. Ela pode passar a buscar o elogio para receber a recompensa e, quando a recompensa desaparece, perder o interesse em fazer aquilo corretamente.

Além disso, segundo o especialista em criação Alfie Kohn, esse tipo de elogio pode fazer com que a criança passe a medir seu próprio valor com base naquilo que faz os adultos sorrirem, e não naquilo que ela realmente pensa sobre si mesma.

O equilíbrio ao elogiar as crianças: o elogio descritivo

Então, afinal, não devemos dizer às crianças o que elas fazem bem? Devemos, mas de outra maneira: usando o elogio descritivo.

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Julgar aquilo que vemos, em vez de descrevê-lo, é um elogio avaliativo. Já o elogio descritivo não classifica o que a criança fez como “bom” ou “ruim”: ele simplesmente descreve a ação. Isso favorece a capacidade de reflexão, o pensamento independente e a autoestima, além de evitar que a criança dependa constantemente da aprovação de outra pessoa.

Vamos colocar isso em prática. Em vez de dizer: “Bom trabalho, você arrumou seu quarto”, podemos falar: “Você conseguiu arrumar seu quarto sozinho. Está orgulhoso?”.

Outro exemplo: em vez de dizer que a criança desenhou uma casa linda, podemos descrevê-la. Algo como: “Você desenhou uma casa com três janelas e uma porta vermelha. Também usou cinza para fazer a fumaça da chaminé.” Também podemos perguntar como ela conseguiu fazer com que as nuvens parecessem tão reais.

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Dessa maneira, a criança recebe atenção e percebe que prestamos atenção ao que ela fez, mas sem transformar o elogio em uma avaliação. Assim, estimulamos sua capacidade de analisar o próprio trabalho e fortalecemos sua segurança. Ela mesma passa a ser capaz de avaliar aquilo que faz.

Há outros exemplos. Quando as crianças ajudam nas tarefas de casa - algo importante para desenvolver autonomia e também contribuir para que sejam mais felizes - podemos agradecer em vez de simplesmente dizer que fizeram um bom trabalho. Também podemos explicar como nos sentimos. 

Por exemplo: “Fico muito feliz que você tenha terminado toda a lição de casa sem ajuda.” Ou valorizar o esforço: “Imagino que tenha sido difícil, mas você conseguiu terminar tudo sozinho.”

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Não existem pais perfeitos. Por isso, não precisamos nos cobrar para estar sempre acertando. Se queremos ser bons pais, podemos começar tentando encontrar um ponto de equilíbrio entre não elogiar nunca e elogiar o tempo todo. O elogio descritivo pode ser uma maneira de mostrar que estamos atentos sem cair na armadilha do “controle açucarado”.

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