Quem nunca deixa o tanque de gasolina chegar à metade pode parecer exageradamente cauteloso para quem prefere viver no limite. E, vamos combinar que é muito comum abastecer próximo à reserva do combustível.
Pela lógica da psicologia, o comportamento pode ter menos a ver com o combustível e mais com a necessidade de manter uma margem de segurança.
Para algumas pessoas, a metade superior do marcador representa uma espécie de zona de tranquilidade. Ou seja, enquanto existe combustível sobrando, existe também a sensação de que um problema inesperado não será capaz de tirá-las do controle.
E até as novelas podem ajudar a ilustrar a situação, mesmo de um jeito torto. Em 'História de Amor' (1995), Helena (Regina Duarte) e Paula (Carolina Ferraz) protagonizaram uma briga feia em um posto de gasolina.
Na trama do saudoso Manoel Carlos, o motivo estava relacionado a um homem, Carlos (José Mayer), e não a um combustível. Mas, dependendo da personalidade de cada uma, talvez a discussão também pudesse ter começado por uma questão muito mais prática: quem deixou o tanque chegar à metade?
Para quem tem esse hábito, abastecer o carro quando o marcador ainda está longe da reserva não é necessariamente sinal de ansiedade excessiva. Pode representar uma tentativa de evitar a sensação de vulnerabilidade associada a ficar sem recursos.
Na prática, existe uma diferença entre o risco real e o momento em que o cérebro começa a reagir a esse risco.
Um motorista pode, por exemplo, saber racionalmente que ainda tem combustível suficiente para rodar muitos quilômetros. Mesmo assim, quando o marcador chega perto da metade, pode surgir aquela sensação de que é melhor abastecer imediatamente.
Isso acontece porque a margem de segurança também pode funcionar como um recurso emocional. Ter combustível sobrando significa não precisar procurar um posto às pressas, não correr o risco de ficar parado no caminho e não depender de uma situação que está fora do controle.
É importante, porém, fazer uma ressalva: não dá para concluir que uma pessoa que abastece o carro cedo teve necessariamente uma infância marcada pela falta de dinheiro, comida ou outros recursos.
A ideia ajuda a entender o conceito de mentalidade de escassez, estudado pelos pesquisadores Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir. Em linhas gerais, a teoria descreve como a sensação de não ter recursos suficientes pode fazer com que a mente passe a dedicar atenção intensa àquilo que está faltando ou pode faltar.
Quando alguém já viveu situações de privação, a simples possibilidade de passar novamente por uma situação semelhante pode ganhar um peso maior. A pessoa passa a valorizar reservas, antecipar problemas e tentar criar uma distância confortável do momento em que algo pode acabar.
É por isso que o mesmo comportamento pode aparecer em outras áreas da vida. Há quem viaje levando roupa para muito mais dias do que ficará fora, mantenha pilhas e baterias extras em casa, tenha sempre dinheiro reservado para emergências ou compre determinados produtos antes mesmo de precisar deles.
A lógica é parecida: é melhor ter e não precisar do que precisar e não ter. No caso do combustível, essa margem aparece literalmente no painel. Enquanto o ponteiro está na metade de cima, existe uma reserva psicológica além da reserva física.
No fim, a parte superior do tanque pode representar algo muito maior do que combustível. Para algumas pessoas, manter aquela metade cheia significa ter distância de uma sensação que conhecem bem: a de não ter o suficiente.