O domingo à noite pode ser sinônimo de angústia, mesmo quando nada em particular parece justificar essa sensação. À medida que o fim de semana chega ao fim, algumas pessoas já começam a temer a segunda-feira e a semana que têm pela frente.
No entanto, essa ansiedade não é necessariamente fruto de simples pensamentos repetitivos: a psicologia aponta diversos mecanismos capazes de explicá-la.
Essa sensação corresponde, sobretudo, ao que chamamos de ansiedade antecipatória, que ocorre quando uma pessoa sente preocupação ou tensão diante de um acontecimento futuro, e não de uma situação que está ocorrendo naquele momento.
Assim, mesmo quando nenhum problema concreto aconteceu, o cérebro pode começar a imaginar o que poderá ocorrer no dia seguinte.
Estudos sobre a intolerância à incerteza, entre eles os conduzidos pelo psicólogo Michel Dugas e seus colaboradores, sugerem que a dificuldade de aceitar as incertezas relacionadas ao futuro pode favorecer a preocupação e a ansiedade.
O cérebro começa, então, a preencher as lacunas da segunda-feira antes mesmo de ela começar.
Também existe um fenômeno de condicionamento. Quando uma pessoa enfrenta segundas-feiras estressantes com frequência, seu cérebro pode acabar associando determinados elementos do domingo à proximidade da semana de trabalho.
O passar das horas, o jantar de domingo, o hábito de consultar a agenda ou até mesmo o pôr do sol podem servir como lembretes de que o fim de semana está acabando.
Esse mecanismo se aproxima dos princípios do condicionamento clássico, associados aos estudos do psicólogo Ivan Pavlov. Um elemento neutro pode ser progressivamente associado a um acontecimento carregado de emoção quando ambos se repetem juntos.
Assim, quando as noites de domingo antecedem com frequência manhãs difíceis, o próprio domingo à noite pode acabar provocando uma sensação de tensão. A ansiedade pode surgir antes mesmo que um acontecimento realmente estressante ocorra.
Outra explicação se baseia nas pesquisas da psicóloga Sabine Sonnentag sobre o distanciamento psicológico do trabalho. Trata-se da capacidade de deixar mentalmente as atividades profissionais de lado durante os períodos de descanso.
Segundo o modelo de estresse e distanciamento desenvolvido pela pesquisadora, as exigências profissionais podem impedir esse processo de recuperação. Estudos mostram, inclusive, que a dificuldade de se desconectar do trabalho está associada a níveis mais elevados de tensão e a um menor bem-estar.
Uma pessoa pode conseguir não pensar no trabalho durante o sábado, mas começar, já no domingo à noite, a antecipar mentalmente a segunda-feira. O fim de semana ainda não terminou, mas, psicologicamente, a semana de trabalho já recomeçou.
Pesquisas realizadas com funcionários em período integral mostraram, por exemplo, que as tensões sociais relacionadas ao trabalho estavam associadas a um menor distanciamento psicológico no domingo à noite, assim como a uma pior qualidade do sono naquela noite.
As ruminações constituem outro mecanismo possível. Elas podem envolver pensar repetidamente em uma conversa difícil com um superior, imaginar como será uma reunião marcada para segunda-feira ou calcular mentalmente tudo o que precisará ser feito.
Esse funcionamento pode dar a impressão de que a pessoa está se preparando para a semana que começa, quando, na verdade, mantém a mente em um estado de alerta relacionado ao trabalho.
Pesquisas recentes conduzidas por Sabine Sonnentag e seus colaboradores mostraram que, quando os funcionários não conseguiam se distanciar de acontecimentos profissionais negativos durante o tempo livre, as ruminações negativas voltadas para o passado estavam associadas a um número maior de emoções negativas no dia seguinte.
O ciclo pode, então, alimentar a si mesmo: pensar na segunda-feira aumenta a ansiedade; essa ansiedade faz com que a segunda-feira pareça mais ameaçadora; e essa percepção leva a pessoa a pensar ainda mais no que poderá acontecer.
O domingo também pode marcar uma mudança importante na maneira como uma pessoa controla o próprio tempo.
Durante o fim de semana, geralmente há mais liberdade: é possível dormir até mais tarde, escolher as próprias atividades e decidir quando atender às diferentes demandas.
Na segunda-feira, essa autonomia dá lugar ao retorno das obrigações e das responsabilidades profissionais. Pesquisas sobre a recuperação durante o fim de semana sugerem, inclusive, que atividades revigorantes podem ajudar a restaurar os recursos psicológicos necessários antes da volta ao trabalho.
Portanto, uma pessoa pode não odiar o próprio emprego e, ainda assim, sentir certa apreensão diante da passagem da liberdade do fim de semana para o retorno das obrigações.
Sentir o que às vezes é chamado de “domingos assustadores” não significa automaticamente que a pessoa esteja inserida em um ambiente profissional ruim ou sofra de um transtorno de ansiedade.
Para algumas pessoas, essa sensação pode corresponder simplesmente a um estresse antecipatório comum.
Para outras, porém, a ansiedade dominical persistente pode estar relacionada a uma carga de trabalho excessiva, à falta de limites entre a vida profissional e pessoal, ao esgotamento profissional ou até mesmo a um ambiente de trabalho realmente estressante.
É principalmente a repetição desse fenômeno que deve chamar a atenção. Se essa ansiedade prejudica regularmente o sono, os relacionamentos ou as atividades cotidianas, ou impede a pessoa de aproveitar boa parte do fim de semana, pode ser pertinente conversar com um profissional qualificado.
O que caracteriza a ansiedade do domingo à noite é justamente o fato de que o acontecimento temido ainda não ocorreu. A pessoa ainda está no domingo à noite, mas sua mente já se projetou para a manhã de segunda-feira.
A psicologia sugere que esse mecanismo pode ser explicado por nossa tendência de antecipar constantemente as demandas futuras.
Quando o estresse profissional, a incerteza, a dificuldade de se desconectar do trabalho e os pensamentos repetitivos se combinam, o fim do fim de semana pode se transformar progressivamente em um verdadeiro sinal de alerta.
Portanto, sentir ansiedade todo domingo à noite, mesmo quando nada de particular está acontecendo, não significa necessariamente que um problema esteja ocorrendo naquele momento.
O cérebro pode simplesmente ter aprendido a se preparar para aquilo que espera vivenciar no dia seguinte.