Aurora López, psicóloga: ‘A síndrome de Wendy refere-se à necessidade de satisfazer, cuidar e atender aos desejos de outras pessoas. Isso causa uma espiral de autodestruição porque você nunca é a sua própria prioridade’
Publicado em 23 de julho de 2026 às 17:20
Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
Se você se identificou com essa frase, saiba como romper esse ciclo
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Feche os olhos e volte à Terra do Nunca. Você se lembra de Wendy? É a menina que cuida de quase todos os personagens da história. Aquela que consegue fazer o que Peter Pan não tem coragem de enfrentar. Ela assume riscos e responsabilidades, mas permanece sempre em segundo plano...

Agora abra os olhos e volte à vida real. Isso lhe parece familiar? Mesmo que não seja o seu caso, provavelmente uma ou várias "Wendys" vieram à sua mente.

Wendy não é apenas uma personagem de conto de fadas. Em termos psicológicos, ela existe de verdade e esse perfil é observado principalmente entre as mulheres, especialmente após a chegada da maternidade.

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Como identificar a síndrome de Wendy

Segundo a psicologia, trata-se de uma síndrome fortemente influenciada pela educação que recebemos ao longo da vida

Em essência, é o comportamento de alguém que precisa sentir que é indispensável para outra pessoa, dedicando-se a cuidar dela para afirmar a própria identidade e reconhecer o próprio valor.

Quem apresenta esse padrão costuma sentir uma necessidade constante de satisfazer o outro, sobretudo o parceiro ou os filhos, deixando as próprias necessidades de lado. É justamente esse aspecto que torna importante buscar ajuda, já que a síndrome pode desencadear problemas secundários, especialmente ansiedade.

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A psicóloga Aurora López, da clínica Más Vida Psicólogos, explica como identificar a síndrome de Wendy, compreender seus efeitos e aprender a superá-la.

Características da síndrome de Wendy

A chamada "síndrome de Wendy" foi descrita pelo psicólogo Dan Kiley, em 1984, para se referir a pessoas que assumem um papel de pai ou mãe em relação ao parceiro, aos amigos ou até mesmo aos próprios filhos adolescentes ou adultos, livrando-os de suas responsabilidades.

"A síndrome de Wendy se refere à necessidade de satisfazer, cuidar e atender aos desejos das outras pessoas. Isso provoca uma espiral de autodestruição, já que você mesma nunca é sua prioridade, levando a um processo gradual de renúncia de si mesma", explica López.

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Segundo a especialista, essas são as principais características desse comportamento:

  • Acredita que amar significa, acima de tudo, cuidar do outro e sente-se realizada ao construir relações baseadas nessa dinâmica;
  • Em um primeiro momento, não se incomoda por não receber o mesmo cuidado em troca. Basta saber que o parceiro se sente amado e feliz;
  • Sente que é indispensável e procura assumir as responsabilidades da outra pessoa;
  • Evita conflitos para que o parceiro não fique irritado ou chateado. Esforça-se para preservar o equilíbrio do outro, enquanto negligencia o próprio;
  • Pede desculpas ou se sente culpada quando as coisas não acontecem como o esperado, principalmente no que diz respeito ao relacionamento.
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Como sair desse padrão?
1. Desconstrua a ideia por trás da síndrome

A pessoa sente que é indispensável. Acredita que precisa assumir todas as responsabilidades e tem um medo profundo da rejeição.

"Tendemos a pensar que, se nos esforçarmos muito pelo outro, demonstraremos que o amamos e, assim, ele não nos deixará (seja um parceiro, um amigo, um filho ou qualquer outro familiar). Mas uma pessoa pode decidir se afastar de você a qualquer momento e sem grandes motivos. Tentar agradar o outro o tempo todo apenas faz com que ele perceba que você se coloca em uma posição inferior e que a relação não é equilibrada, o que acaba trazendo problemas para esse vínculo”, esclarece López.

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Segundo a psicóloga, isso também acontece em relações de amizade e entre pais e filhos, criando uma dependência que gera sofrimento e pode abrir espaço para chantagens emocionais.

2. Faça uma lista dos comportamentos ‘excessivos’ da sua parte

"Ou seja, comportamentos que demonstrem que não há equilíbrio nos cuidados, na atenção, nas tarefas e em outras responsabilidades", explica.

Uma alternativa é falar sobre esses comportamentos em voz alta, buscar um equilíbrio para mudar esses padrões e encontrar formas diferentes de se relacionar que não estejam baseadas na necessidade constante de aprovação.

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O medo de ser abandonado é uma ideia irracional. O importante é compreender que você está assumindo responsabilidades e tarefas que pertencem aos outros. Mas, acima de tudo, é preciso romper com essa dependência emocional que depositamos nas demais pessoas.

3. Pratique seus direitos pessoais

Isso significa aprender a dizer "não", estabelecer limites e delegar tarefas.

Para conseguir interromper esse padrão, o primeiro passo é perceber quando estamos agindo dessa maneira. Em outras palavras, fazer um exercício de introspecção para encontrar o nosso próprio lugar.

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"Você tem o direito de mudar de opinião, dizer não, agir de forma diferente da esperada pelos outros, ser independente, não assumir os problemas alheios e recusar um pedido. Tudo isso é válido. Acolha suas emoções, ame-se e cuide de si", conclui a especialista.

A desaprovação e a perda de afeto fazem parte da vida

López afirma que aceitar a desaprovação e a perda de afeto ao longo da vida faz parte da experiência humana.

Ela explica que cuidar dos outros é algo maravilhoso, mas alerta para o risco de fazer isso em excesso e acabar negligenciando a si mesmo. Também recomenda abandonar a crença de que é preciso ser indispensável para atender às necessidades das pessoas ao redor.

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Em qualquer caso, a psicóloga ressalta que a melhor opção é buscar a ajuda de um psicoterapeuta ou psicólogo para trabalhar a raiz do problema — o medo da rejeição — e aprender a se conhecer melhor, desenvolvendo maneiras mais saudáveis de lidar com as próprias emoções.

O autoengano por trás da síndrome

"A necessidade de satisfazer os outros é um caminho para uma autoestima fragilizada e para a falta de autocuidado. Além disso, na síndrome de Wendy existe um curioso autoengano: dizer a si mesmo 'eu sou feliz assim, gosto de cuidar dos outros e isso me dá satisfação'. É uma forma de acreditar que fazemos isso por vontade própria, sem aceitar que, na realidade, mesmo que não tenhamos consciência disso, agimos movidos pela necessidade de afeto e como uma espécie de 'seguro' contra um possível 'abandono' por parte das pessoas que amamos."

Se você se identificou com Wendy, o caminho para sair desse padrão começa reconhecendo que você age dessa forma — e não há problema algum em admitir isso, afinal, somos humanos.

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Experimente se permitir receber cuidado também. Afinal, nem sempre você precisa ser a pessoa que faz tudo pelos outros.

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