menu close2 Menu
search
Cancelar
Veja todas as fotos
A 'Teoria da Linha Verde' é real? Fotos de Messi e CR7 com esposas viralizam; especialistas alertam para aspecto polêmico por trás da trend: a ideia de domínio masculino
Publicado em 30 de outubro de 2026 às 19:50
Siga o Purepeople no Google Adicione-nos às suas fontes preferidas
Psicóloga Daniela Pereira e pesquisador Erik Camarano explicam por que a trend viral não tem fundamento científico e alertam para o discurso machista por trás da brincadeira
A 'Teoria da Linha Verde' é real? Fotos de Messi e CR7 com esposas viralizam; especialistas alertam para aspecto polêmico por trás da trend: a ideia de domínio masculino A chamada 'Teoria' da Linha Verde viralizou nas redes sociais ao tentar identificar quem tem mais poder em um relacionamento a partir da postura dos casais em fotografias A Teoria da Linha Verde sugere que a inclinação do corpo nas fotos revela relações de domínio e submissão entre homens e mulheres, interpretação contestada por especialistas Erik Camarano e Rachel Ripani participam do lançamento da segunda temporada do podcast Homem Autêntico, que terá como tema o universo da machosfera; pesquisador alerta para o avanço de discursos misóginos nas comunidades digitais e explica como tendências aparentemente inofensivas podem reproduzir ideias machistas A discussão sobre a Teoria da Linha Verde também envolve temas como machismo, misoginia, dominação masculina e violência contra mulheres

Uma foto de Lionel Messi colado em Antonela Roccuzzo, outra de Cristiano Ronaldo ao lado de Georgina Rodríguez e pronto... o tribunal da internet entra em ação! Traçadas com precisão quase cirúrgica sobre os corpos dos casais, as famosas linhas verdes infestam a timeline para ditar quem manda e quem obedece na relação. 

É a tal "Teoria da Linha Verde", a tendência gringa que jura descobrir o nível de poder ou dependência emocional de alguém apenas pela inclinação do tronco em um clique. Mas será mesmo que uma pose inofensiva diz quem manda na casa?

Psicóloga e pesquisador opinam sobre teoria inusitada da web

Para a psicóloga Daniela Pereira, especialista em terapia sistêmica de casais, a resposta é um sonoro não. Ela pondera que, embora a psicologia estude a comunicação não verbal, isso passa longe de significar que cada gesto venha com um manual de tradução universal. “O problema começa quando pegamos um desses sinais isoladamente e atribuímos a ele um significado fixo”, explica a profissional ao Purepeople Brasil.

Alguém pode se inclinar para o lado por puro carinho, diferença de altura, o ângulo da câmera ou só porque achou que ficaria bem na foto. “Uma fotografia registra um instante específico, não a história de uma relação”, ressalta.

Quem compartilha da mesma indignação é o economista Erik 'Ahanti' Camarano, pesquisador focado em masculinidades e autoconhecimento. Para ele, a moda não passa de pseudociência fantasiada de análise psicológica.

“Na internet, infelizmente pipocam coisas sem qualquer fundamento. Para algo ser chamado de 'teoria', tem que ter uma hipótese baseada em evidência. Tem que explicitar uma relação de causa e efeito robusta e tem que ser passível de teste. Então, esse negócio é só uma ideia bizarra de associar essa inclinação do corpo das pessoas a uma ideia de domínio e submissão”, decreta.

Veja também
O Labubu é maligno? Entenda a teoria da conspiração bizarra que associa o boneco 'fashion' ao demônio Pazuzu
De onde vem isso? A ponte direta com a chamada 'machosfera'

Por trás da estética aparentemente inofensiva dos traços coloridos, a origem da trend é bem mais espinhosa. A febre explodiu com o perfil do influenciador Rivelino, conhecido no X/Twitter como @alpharivelino. Em papo com a escritora Andrea Mew em seu Substack, em junho de 2024, o idealizador explicou mais sobre o seu próprio conceito: "Não se incline ao mundo dela; atrai-a para o seu".

Segundo a lógica do streamer, o homem hétero precisa manter a coluna ereta para não passar a imagem de carente ou submisso. Para a psicóloga ouvida pelo veículo, essa leitura do corpo passa bem longe da neutralidade.

“Ela parte de uma determinada concepção de masculinidade e de como os homens e mulheres deveriam se comportar em uma relação”, pontua a especialista, lembrando que impor expectativas culturais como se fossem verdades científicas é um desserviço.

O economista conecta os pontos e mostra onde essa conversa vai parar: na machosfera. A bolha digital reúne fóruns e perfis que fisgam jovens com o discurso vitimista de que os homens estariam perdendo espaço para os avanços feministas.

Nesse ecossistema, uma das vertentes mais populares é a lógica red pill, emprestada do clássico Matrix. No longa, o protagonista Neo (Keanu Reeves) escolhe a pílula vermelha para acordar da ilusão. Na versão deste lado da internet, a "verdade" seria uma suposta ameaça feminina que exige reação rápida dos homens. "Se você, homem, não tomar a pílula vermelha e não acordar para essa realidade, vai se ferrar", explica Camarano.

'É uma tremenda distorção'

“É uma tremenda distorção. Nós estamos ainda tentando avançar com os direitos iguais para as mulheres, uma agenda que começou especialmente na segunda onda do feminismo, nos anos 1960, e estamos longe disso ainda”, rebate o entrevistado, referindo-se a um período de mobilização internacional que ganhou força com obras como "A Mística Feminina" (1963), da escritora e ativista Betty Friedan, e questionou a desigualdade de gênero, a divisão tradicional dos papéis familiares e a falta de oportunidades profissionais para as mulheres.

"Essas conversas de linha verde, red pill, entram no mesmo guarda-chuva desse discurso que reforça uma cultura machista, misógina, que tenta diminuir a importância das mulheres, objetificá-las e impedir um diálogo construtivo de uma relação positiva consciente entre os gêneros", completa ele.

A psicóloga arremata reforçando o perigo desse tipo de conteúdo: quando papéis engessados de gênero são aceitos como regra natural, o controle e a hierarquia masculina passam batidos como algo super normal. Só que relacionamento de verdade não cabe em receita pronta! 

E o alerta não vem só dos especialistas ouvidos pela reportagem não! Em artigo publicado em junho de 2025, a ONU Mulheres alertou para o crescimento da machosfera, definindo o ecossistema como uma teia de comunidades virtuais dedicada a espalhar discursos antifeministas e pintar o homem como a grande "vítima" da sociedade moderna.

No mapa traçado pela entidade, entram grupos como os incels (celibatários involuntários), os MGTOW (que pregam o boicote total às mulheres) e os pick-up artists (os "coaches de xaveco").

Erik faz a ressalva sobre como o discurso radical se esconde sob uma casca amigável. “Os PUAs, que são os pick-up artists, aparentemente são inofensivos, ensinam meninos tímidos a como cantar mulher na balada, por exemplo, mas, na verdade, são uma porta de entrada para esse profundo funil de ódio, de misoginia, de objetificação dos corpos das mulheres como se fossem territórios que nós, homens, podemos ocupar”, avalia.

'Homem não chora': o analfabetismo emocional em pauta

Para além do machismo tóxico, a discussão esbarra na forma como os homens são ensinados a reprimir o que sentem. O pesquisador faz questão de separar a masculinidade radicalizada de iniciativas sérias que incentivam o autocuidado emocional, citando os projetos Papo de Homem e o MEMO, no Rio de Janeiro.

O nó da questão está na infância. Aos 57 anos, ele resgata o peso do que ouviu a vida toda. “Ser homem é não ser mulherzinha, é não ser mulher. Então, o homem não chora, o homem não mostra sentimento. Doeu? Engole o choro e bola para a frente”, relembra.

O resultado dessa conta é um exército de adultos com "subjetividade analfabeta do ponto de vista emocional", incapazes de identificar a própria dor. Daí a urgência de ensinar meninos a acolherem frustrações sem transformar vulnerabilidade em agressão.

Do outro lado, a terapeuta sistêmica reforça que tentar encaixar dinâmicas a dois em rótulos maniqueístas de "dominante" ou "dependente" é uma furada.

“Uma relação saudável não é necessariamente aquela em que os dois possuem comportamentos idênticos, ou que ninguém demonstra maior iniciativa em determinadas situações. O que precisamos observar é se existe respeito, reciprocidade, autonomia, possibilidade de diálogo e liberdade para que ambos expressem suas necessidades”, orienta a psicóloga.

O mesmo vale para a dependência emocional, que passa longe de ser diagnosticada por uma foto de redes sociais. Exige olhar o todo: sentimentos, histórico e o padrão de troca do casal. Não é o ângulo do ombro que vai entregar o jogo.

A própria ciência já desmentiu essa obsessão por "decodificar" corpos. No artigo Four Misconceptions About Nonverbal Communication, publicado em 2023 na prestigiada revista Perspectives on Psychological Science, os pesquisadores Miles L. Patterson, Alan J. Fridlund e Carlos Crivelli derrubaram o mito de que o corpo funciona como um código fixo. Sem contexto e interação, qualquer diagnóstico de foto é mero chute.

Quando o controle vem fantasiado de afeto

Na vida real, os perigos de um relacionamento tóxico raramente aparecem em forma de traço verde. O especialista alerta para comportamentos abusivos que costumam ser maquiados como excesso de paixão - caso do love bombing, aquela avalanche de presentes, declarações e atenção sufocante usada para manipular a outra pessoa.

“Às vezes, muitas vezes, indicadores precoces de um relacionamento abusivo aparecem de forma disfarçada, que a sociedade passa pano, tolera”, adverte o profissional. Ele lista outros sinais vermelhos que exigem saída de emergência: “O cara levantou a voz, deu um soco na parede, quebrou o celular ou invadiu o seu espaço, pegou seu celular, exigiu sua senha, quer ver seu WhatsApp? É a hora de ir embora”.

A diferença entre o cuidado genuíno e o controle disfarçado fica clara quando se analisa a autonomia de cada um. Na visão da especialista em casais, a balança só funciona quando há liberdade de expressão. Faltou isso, acende o sinal vermelho!

O debate ganha ainda mais espaço no debate público com a estreia da segunda temporada do podcast "Homem Autêntico", que trará o “Manual da Machosfera”. O evento de lançamento está marcado para o dia 31 de outubro de 2026, no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, com painel reunindo Erik Camarano e a atriz e produtora Rachel Ripani.

Por Luiz Eugênio de Castro | Reality show, redes sociais e TV
Leonino apaixonado por entretenimento e cultura pop! Filho legítimo de Britney Spears e obcecado pela Anitta, claro!
Sobre
Lionel Messi

Lionel Messi

chevron_right
Palavras-chave
Famosos Internacionais Polêmica Redes sociais Principais notícias Entretenimento Curiosidades Esporte Casal Futebol Bem-estar