Dependência emocional é algo que, passa o tempo e gerações, segue atingindo pessoas de todos os tipos de gêneros, lugares e classes sociais. O pior é que a doença psicológica nem sempre aparece de maneira óbvia.
É justamente esse comportamento silencioso e perigoso que a psicóloga Miriam Ruiz aborda ao explicar como esse tipo de relação pode afetar a identidade e o bem-estar.
Segundo a autora de ‘Eu não dependo mais de você’, a dependência emocional aparece quando a vida de alguém gira em torno de outra. A partir daí, a pessoa pode perder de vista os próprios gostos e desgostos, ficando cada vez mais disponível para agradar ao outro.
A ficção está aí para mostrar laguns casos. Na novela das sete ‘Por Você’, da Globo, Vanessa (Alinne Moraes) vive uma relação marcada pela obsessão por Gabriel (Thiago Lacerda). A empresária não aceita o fim do casamento proposto pelo marido e demonstra intenso ciúme de Bela (Sheron Menezzes), ex-namorada de Gabriel.
Na prática, porém, ser emocionalmente dependente de alguém não significa simplesmente amar demais ou precisar de afeto e atenção. O problema aparece quando o medo de perder a pessoa passa a ser maior do que a preocupação com o próprio bem-estar.
Para Miriam, um dos sinais desse processo é quando começa a deixar os amigos de lado ou faz menos planos com a família por causa de uma relação. Aos poucos, a vida vai ficando cada vez mais concentrada naquele vínculo, enquanto outras fontes de prazer, afeto e realização perdem espaço.
Outro ponto levantado pela psicóloga é o chamado 'implorar por amor'. A expressão trata-se de perceber sinais claros de que a outra pessoa não está interessada, nem cuidando de você e muito menos retribuindo aquilo que recebe.
É nesse momento que a dependência pode começar a ultrapassar os limites de uma relação saudável. Como resume Miriam: “Ter amor-próprio, amar a si mesmo, também significa saber quando dizer: ‘Isso está me machucando’”.
Um relacionamento saudável, segundo a reflexão da psicóloga, precisa ter alguns elementos fundamentais: sentir-se amado, ouvido, respeitado e cuidado, além da segurança de poder contar com a outra pessoa. E existe ainda um ponto essencial: reciprocidade.
Essa análise também pode ser relacionada a Brigitte, personagem de Tatá Werneck em ‘Quem Ama Cuida’. Embora as histórias e os contextos sejam diferentes, a personagem permite observar como vínculos afetivos podem influenciar decisões e a maneira como alguém enxerga a própria vida.
Brigitte sofre com obsessão por homens, em uma doença chamda erotomania. O tema não ganhou a importância que merecia. Ao mesmo tempo, ela sofre com a falta de carinho da mãe Pilar (Isabel Teixeira), o que a torna dependente dessa mulher que não lhe trata bem desde a infância.
Miriam Ruiz defende que uma das estratégias é voltar a olhar para a própria vida.
“Concentre-se na sua própria vida. Sonhar, praticar esportes, aprender e passar tempo consigo mesmo são coisas incrivelmente importantes. Muitas vezes, pequenos gestos, como começar uma atividade que você gosta ou dar um passeio, fazem uma enorme diferença”.
A ideia é simples, mas pode ser difícil para quem passou muito tempo colocando outra pessoa no centro de tudo. Recuperar hobbies, amizades, planos pessoais e momentos de solitude pode ajudar a reconstruir uma identidade que foi ficando escondida dentro da relação.
No fim, a psicóloga deixa uma reflexão que resume o limite entre amor e dependência: “Talvez não estejamos escolhendo essa pessoa porque queremos estar com ela, mas sim porque temos medo de ficar sem ela, e isso é dependência”.