A chegada da aposentadoria, muito comum no grupo da terceira idade, pode ser amada por uns, mas também odiada por outros. Grande parte dessa parcela da população sente receio em perder a sua identidade, ocasionando impacto direto no cérebro e na saúde mental.
Passo por essa situação aqui em casa com minha mãe, que após anos de trabalho, sente medo de começar uma nova rotina. Enquanto alguns indivíduos torcem bastante por esse momento chegar, tirando o passaporte da bolsa e dando início à viagens de tirar o fôlego pelo mundo, outros ficam mais resistentes pela fase da vida.
Os costumes mudam completamente, já que os hábitos e as rotinas que seguia anteriormente no trabalho, são interrompidos de uma hora para outra. Essa situação pôde ser vista com o personagem de Lineu (Marco Nanini) na série "A Grande Família", da Globo.
Na história, o pai de Bebel (Guta Stresser) se aposenta da vigilância sanitária, após mais de 35 anos na ativa. Dessa forma, acaba se sentindo até meio perdido com o tempo livre, e para se ocupar, abre um pet shop. Já em "A Praça é Nossa", Carlos Alberto de Nóbrega conversa com diferentes pessoas em um banco ao tentar ler seu jornal.
O personagem nunca teve detalhes revelados, mas foi inspirado em um idoso que morava na Argentina e tinha esse hábito. Provavelmente, um aposentado.
Assim, a aposentadoria está bem longe do que se planejou anteriormente. Ela mexe de forma considerável com o cérebro, uma vez que muitas pessoas perdem aquele senso de identidade e de valor, construídos no decorrer dos anos.
E é por isso que a psicologia, além de tentar explicar a razão pela qual muitos idosos sentem solidão, se debruça ainda no processo de aposentadoria e o impacto causado na vida dos aposentados. Já a professora Márcia Pitta, autora do livro "Curta a Vida na Aposentadoria" fez uma reflexão que envolve o passar dos anos e a aposentadoria.
E a profissional tem uma frase perfeita para se refletir e não se deixar abalar com as mudanças que a aposentadoria traz: "A palavra aposentar não é sinônimo de 'envelhecer', e sim um dos sintomas de vencer". Ainda no lvro, outro ensinamento: "Uma grande diferença entre o casamento humano e o trabalhista é que quando você faz um casamento trabalhista, não é até que a morte os separe".
Já a psicóloga Ana Galán reforçou que a autoestima sofre impacto quando a pessoa deixa de trabalhar por conta da idade e/ou tempo de contribuição. "Ao se aposentar, muitas pessoas sentem que perdem parte de sua identidade e experimentam sentimentos de inutilidade", crava a especialista.
Isso porque o cérebro é trabalhado com o hábito de cumprir uma jornada diária e traz reconhecimento para a pessoa. Por isso, é necessário se reinventar. Porém, para muitos, o resultado não vem de maneira simples, muito menos de imediato.
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Segundo a profissional, os hábitos diários devem ser preservados, já que "a rotina funciona como um apoio emocional silencioso". Logo, se os hábitos antigos são interrompidos de forma abrupta, e as pessoas apresentam a tendência do mal-humor e a ficarem rabugentas.
Assim, é importante manter os costumes e horários básicos que tinha antigamente, como o momento de acordar, de almoçar e jantar, além de manter o contato com seus amigos e colegas, para melhorar o humor. Tais detalhes mesmo que pequenos e previsíveis passam a sensação do aposentado ter maior controle da situação.
"Se levantar em um horário semelhante, sair ao ar livre sob a luz natural, movimentar-se um pouco a cada dia ou ter uma breve conversa agendada pode mudar muito a forma como você vivencia o dia", discorreu Ana.
Aqui neste caso a mente também é protagonista, uma vez que emoções podem ficar meio turbulentas. A tristeza não está associada à fraqueza, e muito menos à nostalgia. As comparações com vivências que ficaram no passado podem surgir, além daquela sensação de vazio:
"Essas mudanças refletem um processo de adaptação a uma nova fase da vida, não uma fraqueza pessoal", apontou a profissional. E se as pessoas conseguirem reconhecer isso, já é uma grande ajuda, saindo desse momento tenso de isolamento. Além disso, sabe aquela sensação de "não pertencimento"? Para a psicóloga, isso está relacionado à mudança de identidade.
A psicóloga Ana Galán ressalta que as pessoas precisam ser pacientes consigo mesmas. Bem como a inclusão de atividades e rotinas simples. O que é benéfico para o chamado real significado de estrutura:
"O bem-estar não vem da pena, mas de recuperar o próprio lugar na vida cotidiana", explicou, para evitar aquela sensação de vazio. Sendo assim, se você conhece alguém que vive essa situação no momento, tente auxiliar de maneira concreta, ouvindo e dando importância e utilidade a ela, de acordo com a profissional:
"O importante é estar disponível sem ser intrusivo e manter contato por mais de um dia", sugere. Isso pode fazer toda a diferença.
(com Clara Molter)