Édith Piaf ficou conhecida mundialmente pela voz potente, pelas paixões intensas e por canções icônicas como “La Vie en Rose” e “Non, Je Ne Regrette Rien”. Mas existe um detalhe menos confortável de sua vida que volta agora ao centro das atenções com um novo musical protagonizado por Laila Garin: os anos vividos pela cantora durante a ocupação nazista da França.
É essa faceta que “PIAF - Eu Não Me Arrependo” promete explorar. A montagem, dirigida por Sergio Módena e escrita por Newton Moreno e Alessandro Toller, chega ao Teatro Riachuelo Rio neste sábado (10), mesma data associada à morte da cantora, em 1963. A temporada carioca segue até 1º de novembro.
O espetáculo não se limita, segundo sua divulgação, à ascensão artística de Piaf. A página do Teatro Riachuelo destaca também seu envolvimento com a Resistência francesa. Já uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em agosto de 2026, afirma que a nova montagem dedica uma parte significativa à dimensão política da cantora durante a ocupação alemã.
“A Piaf é uma figura muito política”, afirmou Módena à Folha. Segundo ele, essa dimensão foi pouco explorada em versões anteriores da história da artista e ocupa espaço importante na nova dramaturgia.
A história, porém, é mais complicada do que simplesmente separar Piaf entre “aliada” e “inimiga”. Durante a ocupação, a cantora fez apresentações na Alemanha. O pesquisador britânico David Looseley, autor de Édith Piaf: A Cultural History, publicado pela Liverpool University Press e disponibilizado pela Oxford Academic, descreve o comportamento da artista naquele período como politicamente e moralmente ambíguo.
Segundo Looseley, Piaf viajou à Alemanha em 1943 e 1944. Depois da guerra, esse fato pesaria sobre sua trajetória: em 1945, ela foi chamada a depor diante de um comitê responsável por investigar possíveis colaboradores na indústria do entretenimento. A cantora, no entanto, não foi punida.
A documentação analisada pelo pesquisador registra que Piaf e sua então secretária, Andrée Bigard, sustentaram que as apresentações tinham como público prisioneiros de guerra franceses. A defesa também afirmava que a cantora havia ajudado colegas judeus que estavam impedidos de trabalhar. O comitê acabou aceitando essa versão, e Piaf foi liberada sem penalidade.
Entre os casos considerados mais bem documentados está o de Michel Émer, músico judeu e autor de “L'Accordéoniste”, uma das canções associadas ao repertório de Piaf.
Segundo a organização Holocaust Music, ligada à ORT, Piaf usou sua posição e seus recursos para ajudá-lo a chegar à França não ocupada, onde ele permaneceu escondido até a Libertação. A mesma fonte registra que a cantora também ajudou o pianista judeu Norbert Glanzberg, com quem manteve um relacionamento.
Glanzberg, que havia fugido para o sul da França depois da ocupação de Paris, vivia com documentos falsos quando foi preso em Marselha, em 1943. De acordo com Looseley, ele chegou a ficar sob risco de deportação. A ajuda de Piaf, segundo o pesquisador, foi principalmente financeira - uma atuação considerada importante, embora menos arriscada do que outras formas de resistência.
Glanzberg posteriormente se tornaria compositor de duas músicas famosas ligadas ao repertório de Piaf: “Padam... Padam...” e “Mon manège à moi”. A relação entre os dois também ajuda a desmontar uma leitura simplista sobre a vida da cantora durante a ocupação. Piaf se apresentou na Alemanha, mas também manteve vínculos com pessoas perseguidas pelo regime nazista.
Segundo os relatos reunidos por Looseley, Piaf teria feito fotografias ao lado de prisioneiros durante suas viagens à Alemanha. Essas imagens poderiam depois ser utilizadas para produzir documentos falsos e ajudar alguns deles a escapar, inclusive apresentando alguns como integrantes de sua própria equipe. O número de pessoas supostamente beneficiadas, entretanto, é controverso.
A própria Piaf teria falado em 118 prisioneiros. Outras fontes citadas pelo pesquisador apresentam números diferentes. Looseley ressalta que não há consenso sobre quantas pessoas efetivamente conseguiram escapar graças à operação e registra que alguns biógrafos são céticos em relação à extensão desse episódio.
A organização Holocaust Music também descreve a operação das fotografias e dos documentos falsos, mas ressalta que a participação de Piaf na Resistência parece ter ficado mais concentrada em favores pessoais e ajuda a indivíduos específicos do que em uma atuação sistemática dentro de redes de resistência.
A cantora não pode ser descrita simplesmente como uma colaboracionista nazista porque foi investigada e acabou liberada sem punição. Mas também seria impreciso transformar toda a sua atuação durante a ocupação em uma narrativa heroica sem ressalvas.
O estudo de Looseley é particularmente cuidadoso nesse ponto. Para o pesquisador, o comportamento de Piaf durante a ocupação foi ambíguo tanto política quanto moralmente. Ela demonstrava antipatia pelos alemães em determinadas situações, mas também realizou apresentações na Alemanha ocupada. Ao mesmo tempo, há registros de ajuda a colegas judeus e de ações relacionadas a prisioneiros franceses.
A proposta de “PIAF - Eu Não Me Arrependo” é ampliar a imagem conhecida da cantora. Em vez de apresentar apenas a menina pobre que se tornou uma das vozes mais famosas da França, a montagem conduzida por Sergio Módena também mergulha nas escolhas e contradições de uma mulher que viveu um dos períodos mais violentos da história europeia.
A página oficial do espetáculo descreve a produção como um musical biográfico que acompanha Piaf da infância à consagração internacional. No Rio, a montagem chega acompanhada de uma orquestra e de 12 atores, com Laila Garin interpretando a protagonista. Entre as músicas anunciadas estão “La Vie en Rose”, “Hymne à l'Amour”, “Padam, Padam”, “Milord” e “Non, Je Ne Regrette Rien”.