Nascida em 1915, Edith Piaf cantou para alemães durante o nazismo, ajudou perseguidos e acabou investigada após a guerra: o passado controverso que Laila Garin revive no palco
Publicado em 10 de outubro de 2026 às 08:38
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A cantora francesa atravessou um dos períodos mais sombrios da Europa e deixou uma história bem mais complexa do que a voz de ‘La Vie en Rose’ faz imaginar
Édith Piaf cantou para alemães durante o nazismo, ajudou perseguidos e acabou investigada após a guerra: o passado controverso que Laila Garin revive no palco Édith Piaf, cantora francesa eternizada por ‘La Vie en Rose’, teve uma trajetória marcada por fama, tragédias pessoais e episódios controversos durante a Segunda Guerra Mundial Édith Piaf se tornou um dos maiores símbolos da música francesa, mas sua atuação durante a ocupação nazista também marcou sua história A cantora francesa Édith Piaf é tema do musical ‘Piaf – Eu Não Me Arrependo’, estrelado por Laila Garin Édith Piaf fez apresentações na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e, após o conflito, foi chamada a responder sobre sua atuação no período

Édith Piaf ficou conhecida mundialmente pela voz potente, pelas paixões intensas e por canções icônicas como “La Vie en Rose” e “Non, Je Ne Regrette Rien”. Mas existe um detalhe menos confortável de sua vida que volta agora ao centro das atenções com um novo musical protagonizado por Laila Garin: os anos vividos pela cantora durante a ocupação nazista da França.

É essa faceta que “PIAF - Eu Não Me Arrependo” promete explorar. A montagem, dirigida por Sergio Módena e escrita por Newton Moreno e Alessandro Toller, chega ao Teatro Riachuelo Rio neste sábado (10), mesma data associada à morte da cantora, em 1963. A temporada carioca segue até 1º de novembro.

O espetáculo não se limita, segundo sua divulgação, à ascensão artística de Piaf. A página do Teatro Riachuelo destaca também seu envolvimento com a Resistência francesa. Já uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em agosto de 2026, afirma que a nova montagem dedica uma parte significativa à dimensão política da cantora durante a ocupação alemã.

“A Piaf é uma figura muito política”, afirmou Módena à Folha. Segundo ele, essa dimensão foi pouco explorada em versões anteriores da história da artista e ocupa espaço importante na nova dramaturgia.

Piaf cantou na Alemanha durante a guerra

A história, porém, é mais complicada do que simplesmente separar Piaf entre “aliada” e “inimiga”. Durante a ocupação, a cantora fez apresentações na Alemanha. O pesquisador britânico David Looseley, autor de Édith Piaf: A Cultural History, publicado pela Liverpool University Press e disponibilizado pela Oxford Academic, descreve o comportamento da artista naquele período como politicamente e moralmente ambíguo.

Segundo Looseley, Piaf viajou à Alemanha em 1943 e 1944. Depois da guerra, esse fato pesaria sobre sua trajetória: em 1945, ela foi chamada a depor diante de um comitê responsável por investigar possíveis colaboradores na indústria do entretenimento. A cantora, no entanto, não foi punida.

A documentação analisada pelo pesquisador registra que Piaf e sua então secretária, Andrée Bigard, sustentaram que as apresentações tinham como público prisioneiros de guerra franceses. A defesa também afirmava que a cantora havia ajudado colegas judeus que estavam impedidos de trabalhar. O comitê acabou aceitando essa versão, e Piaf foi liberada sem penalidade.

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A cantora ajudou perseguidos durante a ocupação

Entre os casos considerados mais bem documentados está o de Michel Émer, músico judeu e autor de “L'Accordéoniste”, uma das canções associadas ao repertório de Piaf.

Segundo a organização Holocaust Music, ligada à ORT, Piaf usou sua posição e seus recursos para ajudá-lo a chegar à França não ocupada, onde ele permaneceu escondido até a Libertação. A mesma fonte registra que a cantora também ajudou o pianista judeu Norbert Glanzberg, com quem manteve um relacionamento.

Glanzberg, que havia fugido para o sul da França depois da ocupação de Paris, vivia com documentos falsos quando foi preso em Marselha, em 1943. De acordo com Looseley, ele chegou a ficar sob risco de deportação. A ajuda de Piaf, segundo o pesquisador, foi principalmente financeira - uma atuação considerada importante, embora menos arriscada do que outras formas de resistência.

Glanzberg posteriormente se tornaria compositor de duas músicas famosas ligadas ao repertório de Piaf: “Padam... Padam...” e “Mon manège à moi”. A relação entre os dois também ajuda a desmontar uma leitura simplista sobre a vida da cantora durante a ocupação. Piaf se apresentou na Alemanha, mas também manteve vínculos com pessoas perseguidas pelo regime nazista.

E a história dos prisioneiros de guerra?

Segundo os relatos reunidos por Looseley, Piaf teria feito fotografias ao lado de prisioneiros durante suas viagens à Alemanha. Essas imagens poderiam depois ser utilizadas para produzir documentos falsos e ajudar alguns deles a escapar, inclusive apresentando alguns como integrantes de sua própria equipe. O número de pessoas supostamente beneficiadas, entretanto, é controverso.

A própria Piaf teria falado em 118 prisioneiros. Outras fontes citadas pelo pesquisador apresentam números diferentes. Looseley ressalta que não há consenso sobre quantas pessoas efetivamente conseguiram escapar graças à operação e registra que alguns biógrafos são céticos em relação à extensão desse episódio.

A organização Holocaust Music também descreve a operação das fotografias e dos documentos falsos, mas ressalta que a participação de Piaf na Resistência parece ter ficado mais concentrada em favores pessoais e ajuda a indivíduos específicos do que em uma atuação sistemática dentro de redes de resistência.

Heroína da Resistência ou colaboradora? A resposta não é tão simples

A cantora não pode ser descrita simplesmente como uma colaboracionista nazista porque foi investigada e acabou liberada sem punição. Mas também seria impreciso transformar toda a sua atuação durante a ocupação em uma narrativa heroica sem ressalvas.

O estudo de Looseley é particularmente cuidadoso nesse ponto. Para o pesquisador, o comportamento de Piaf durante a ocupação foi ambíguo tanto política quanto moralmente. Ela demonstrava antipatia pelos alemães em determinadas situações, mas também realizou apresentações na Alemanha ocupada. Ao mesmo tempo, há registros de ajuda a colegas judeus e de ações relacionadas a prisioneiros franceses.

O passado que Laila Garin encara no palco

A proposta de “PIAF - Eu Não Me Arrependo” é ampliar a imagem conhecida da cantora. Em vez de apresentar apenas a menina pobre que se tornou uma das vozes mais famosas da França, a montagem conduzida por Sergio Módena também mergulha nas escolhas e contradições de uma mulher que viveu um dos períodos mais violentos da história europeia.

A página oficial do espetáculo descreve a produção como um musical biográfico que acompanha Piaf da infância à consagração internacional. No Rio, a montagem chega acompanhada de uma orquestra e de 12 atores, com Laila Garin interpretando a protagonista. Entre as músicas anunciadas estão “La Vie en Rose”, “Hymne à l'Amour”, “Padam, Padam”, “Milord” e “Non, Je Ne Regrette Rien”.

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