A cinebiografia "Homem com H", disponível na Netflix desde 17 de junho, reacendeu um dos maiores mistérios envolvendo a trajetória de Ney Matogrosso: o desaparecimento de um quadro exclusivo, pintado especialmente para ele pelo lendário artista plástico Keith Haring, em 1983.
A obra, que aparece em destaque no quarto do personagem vivido por Jesuíta Barbosa, traz a dedicatória “For Ney Matogrosso” e representa um momento real e marcante da vida do cantor. O quadro foi criado nos bastidores do Festival de Montreux, na Suíça, após uma performance arrebatadora de Ney — uma das muitas que ajudaram a consolidar sua imagem como ícone da liberdade artística.
Segundo relatos do diretor Esmir Filho, o quadro foi deixado para secar atrás do palco após o show, mas desapareceu misteriosamente na manhã seguinte. Nunca mais foi visto. “Eram dois artistas dialogando ali, no meio do festival. Quando foram buscar, no dia seguinte, tinham roubado. Ninguém sabe onde ele está”, contou Esmir em entrevista ao Estado de Minas.
Mesmo depois de mais de quatro décadas, o paradeiro da pintura ainda é desconhecido. Nem mesmo Ney ou pessoas próximas conseguiram rastrear a obra, um original de Haring, hoje avaliado como item de alto valor histórico e artístico.
Keith Haring, nascido em 1958 na Pensilvânia, tornou-se um dos maiores nomes da pop art e da arte urbana dos anos 1980. Em Nova York, transformou estações de metrô e muros em galerias públicas com seus desenhos de traços vibrantes e figuras icônicas como o “radiant baby”. Abertamente gay e ativista, usou sua arte para denunciar injustiças sociais, militar pelos direitos LGBTQIA+ e, sobretudo, para chamar atenção para a epidemia de AIDS, que dizimava a comunidade artística naquele período.
Diagnosticado com HIV em 1987, Haring continuou produzindo até sua morte, em 1990, aos 31 anos. Durante sua trajetória, construiu amizades marcantes com nomes como Madonna, Andy Warhol, Grace Jones e Jean-Michel Basquiat, que, assim como ele, foram símbolos de uma Nova York criativa, ousada e marginal. Sua obra segue viva como símbolo de resistência, empatia e transformação social.
A inserção do quadro na narrativa do filme não foi por acaso. Além de resgatar o episódio pouco conhecido pelo grande público, o diretor decidiu prestar uma homenagem dupla: tanto ao legado de Ney quanto à memória de Keith Haring, que morreu em 1990, vítima da AIDS. “Simbolicamente, a gente devolveu o quadro para o Ney da ficção”, explicou Esmir.
Essa escolha estética também dialoga com um dos momentos mais dramáticos da cinebiografia: o impacto da epidemia de AIDS nos anos 1980. Haring, conhecido por seu ativismo e linguagem visual marcante, foi uma das muitas vítimas da doença que devastou a comunidade artística naquela década.