Entrevista | 'Estigma nasce da falta de informação': aos 52 anos, lenda do rugby que vive com HIV, Gareth Thomas faz alerta sobre tabus do diagnóstico após pesquisa inédita no Brasil
Publicado em 29 de julho de 2026 às 16:30
Durante a AIDS 2026, o ex-jogador participa da campanha Tackle HIV e comenta pesquisa que revela desafios da desinformação no Brasil: 36% ainda acreditam que homens heterossexuais não correm risco de HIV
Entrevista | 'Estigma nasce da falta de informação': aos 52 anos, lenda do rugby que vive com HIV, Gareth Thomas faz alerta sobre tabus do diagnóstico após pesquisa inédita no Brasil Gareth Thomas, ex-capitão do rugby do País de Gales, fala sobre HIV, combate ao estigma e a importância da informação durante entrevista ao Purepeople Brasil Gareth Thomas revelou viver com HIV em 2019 e transformou sua história pessoal em uma campanha global contra o preconceito Gareth Thomas, primeiro jogador profissional de rugby em atividade a assumir publicamente ser gay, tornou-se uma voz na luta contra o estigma do HIV Gareth Thomas e o marido, Stephen, vivem uma relação marcada por parceria e apoio após o atleta revelar seu diagnóstico de HIV

Durante boa parte da carreira, Gareth Thomas precisou lidar com batalhas muito maiores do que as travadas dentro de campo. Um dos maiores nomes da história do rugby galês (com 100 partidas pela seleção nacional, ex-capitão de Gales e dos tradicionais British & Irish Lions), o ex-atleta fez história em 2009 ao se tornar o primeiro jogador profissional da modalidade ainda em atividade a assumir publicamente ser gay.

Dez anos depois, em 2019, voltou a romper barreiras ao revelar que vivia com HIV. Desde então, Thomas transformou a própria trajetória em uma ferramenta de conscientização. Hoje, lidera globalmente a campanha Tackle HIV, iniciativa apoiada pela ViiV Healthcare que usa o esporte para combater a desinformação sobre o vírus e reduzir o estigma enfrentado por pessoas que vivem com HIV.

Nesta quarta-feira (29), durante sua passagem pelo Rio de Janeiro para participar da AIDS 2026, maior conferência internacional sobre HIV do mundo, Gareth conversou com o Purepeople e falou sobre liberdade, preconceito, mídia e o motivo que o levou a deixar o silêncio para trás...

'Eu não queria pedir desculpas por quem eu era'

Poucos dias antes da entrevista, o Purepeople assistiu ao documentário "Gareth Thomas: HIV and Me", lançado pela BBC One, que revisita a trajetória de Gareth Thomas e mostra os bastidores da decisão de tornar público o diagnóstico de HIV.

Ao relembrar aquele período, o ex-jogador afirma que houve um momento em que esconder a condição passou a ser mais difícil do que conviver com ela:

"Foi quando percebi que eu estava bem com quem eu era, vivendo com HIV. Quando entendi que não queria que a minha vida fosse ditada pelo que eu imaginava que as outras pessoas pensavam de mim. Eu preferia que ela fosse guiada pelo que eu pensava sobre mim mesmo, e não pela opinião dos outros. Também senti que não deveria precisar esconder quem eu era por causa da falta de conhecimento das outras pessoas, e não da minha. Pensei que a única forma de criar um ambiente melhor e mais seguro para viver era, primeiro, encontrar um lugar onde eu não precisasse mentir e, depois, ter a oportunidade de compartilhar com outras pessoas o mesmo conhecimento que eu tinha"

Gareth Thomas é casado há 9 anos com seu marido, Stephen Thomas. O casal se uniu em 2016. Com o avanço da ciência e da medicina, o ativista celebra a possibilidade de viver uma "vida normal, feliz e saudável". "Posso ter um relacionamento feliz. Não transmito o vírus por meio de relações sexuais porque estou em tratamento eficaz", afirmou. 

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Gareth Thomas é casado há 9 anos com seu marido, Stephen Thomas © Reprodução/Instagram

Segundo dados do UNAIDS, obtidos na plataforma AIDSinfo, hoje pessoas que vivem com HIV podem ter qualidade e expectativa de vida semelhantes às da população em geral. Com o tratamento adequado, o vírus torna-se indetectável e deixa de ser transmitido por via sexual (I=I).

"Também não posso transmitir o HIV apertando a mão de alguém ou dando um abraço. Então, eu queria fazer parte da mudança. Queria ajudar a derrubar as barreiras que foram criadas pela falta de conhecimento, pela falta de informação", acrescentou.

Mais do que revelar um diagnóstico, ele diz que buscava recuperar a própria autenticidade. "O silêncio se torna uma parte da sua vida que não é autêntica. É como um pedido de desculpas. É um sinal de vergonha", expressou.

Questionado se contar sua história lhe devolveu a liberdade, Gareth responde que a decisão lhe permitiu descobrir quem realmente era. "Me deu a oportunidade de buscar quem eu realmente deveria ser, em vez de tentar ser aquilo que os outros esperavam de mim. Posso simplesmente chegar a qualquer lugar e ser autêntico, sem sentir que preciso pedir desculpas por existir", disparou.

Pesquisa mostra que desinformação ainda preocupa no Brasil

A presença de Gareth Thomas no Brasil faz parte da campanha Tackle HIV durante a AIDS 2026.

Uma pesquisa internacional divulgada pela iniciativa mostra que a desinformação ainda representa um desafio importante no país. Segundo o levantamento, 36% dos brasileiros acreditam que homens heterossexuais não correm risco de contrair HIV. Além disso, apenas 29% sabem que pessoas vivendo com HIV, em tratamento eficaz e com carga viral indetectável, não transmitem o vírus por via sexual.

Para Gareth, esses números refletem um problema que vai muito além do Brasil. 

"Isso acontece por causa da desinformação e do medo que ainda existe em torno da educação sobre o HIV. Também há uma percepção muito forte de que, se o HIV não afeta você ou as pessoas ao seu redor, então ninguém fala sobre o assunto. Parece que ele só entra em pauta quando se torna um problema imediato ou relevante para alguém. No entanto, a importância de que todas as pessoas façam o teste é uma mensagem fundamental. Os dados que vemos no Brasil são muito parecidos com os que encontramos em outros países. O estigma existe em diferentes lugares do mundo e, na maioria das vezes, se manifesta de maneiras muito semelhantes. E o estigma nasce justamente da falta de informação, da falta de conhecimento ou até da falsa impressão de que as pessoas já sabem tudo sobre o assunto"

Na avaliação do ativista, muitas pessoas acreditam que já conhecem o assunto, mas continuam baseando suas opiniões em informações antigas. "Muitas acreditam que têm a informação correta, quando, na verdade, ela está desatualizada ou simplesmente errada. E, por isso, acabam fechadas para aprender algo novo. [...] É exatamente por isso que fazemos questão de sermos muito ativos na mídia, na imprensa, na televisão e também presencialmente", continuou.

Gareth Thomas destaca responsabilidade da imprensa no combate ao estigma

O debate sobre o papel da imprensa também entrou na conversa. No Brasil, a relação entre HIV, mídia e estigma ficou marcada por episódios bem memoráveis. 

Um dos mais lembrados envolve Cazuza, que revelou viver com AIDS em 1989 e, meses antes de morrer, estampou a capa da revista Veja em uma imagem que até hoje desperta discussões sobre os limites da exposição de pessoas gravemente doentes e o impacto desse tipo de cobertura na percepção pública sobre o HIV.

Ao ser questionado pelo Purepeople sobre a responsabilidade da imprensa diante desse histórico - e sobre como jornalistas podem contribuir para combater o preconceito atualmente - Gareth foi categórico: "Um papel enorme. Enorme mesmo".

"Eu tive a sorte de o rugby me dar uma plataforma. Então, quando eu falo, consigo alcançar muitas pessoas. Mas, quando um jornalista publica uma reportagem, ela pode ser lida por milhões de pessoas. Isso é uma enorme responsabilidade. Se essa reportagem não estiver correta, se não for baseada em fatos, milhões de pessoas serão mal informadas. E, quando isso acontece, milhões também passam a ter uma compreensão equivocada do HIV", avaliou.

O ex-atleta conta que, quando revelou publicamente viver com HIV, ficou surpreso ao perceber que muitos profissionais da imprensa ainda desconheciam avanços científicos importantes sobre o tratamento. "É importante que ele seja abordado pela imprensa, mas é ainda mais importante que seja tratado da maneira correta. Por isso, é essencial que os profissionais da imprensa usem seus canais para conversar com pessoas como eu e com outros ativistas".

Ao ser questionado pelo Purepeople sobre a responsabilidade da imprensa diante desse histórico - e sobre como jornalistas podem contribuir para combater o preconceito atualmente - Gareth foi categórico: 'Um papel enorme. Enorme mesmo' © Divulgação, Tackle HIV/James Robinson/BeatMedia
Rugby deu uma plataforma ao ativista

Embora tenha construído uma carreira histórica dentro de campo, Gareth acredita que o esporte acabou se tornando um meio para alcançar um propósito maior. "O rugby me deu uma plataforma necessária para realizar aquilo que sempre quis de verdade: ser um ativista e ajudar a construir ambientes melhores para pessoas que muitas vezes são mandadas ficar em silêncio", explicou.

Na visão dele, poucos espaços têm o poder de unir pessoas tão diferentes quanto o esporte: "Ele reúne pessoas de diferentes nacionalidades, religiões, orientações sexuais e origens. O esporte mostra que as nossas diferenças podem nos aproximar, em vez de nos separar".

"Quando um atleta fala, muitas vezes mais pessoas prestam atenção nele do que em um chefe de Estado ou em um governador. [...] Os torcedores vivem suas emoções por meio dos atletas. Da mesma forma, quando um atleta passa por um momento difícil e precisa de apoio, os fãs também querem apoiá-lo. Por isso, o esporte consegue transmitir mensagens de uma forma quase inconsciente", opinou Gareth.

'As boas pessoas me dão esperança'

Depois de anos dedicados ao ativismo, o galês afirma que ainda acredita na capacidade das pessoas de promover mudanças: "O que me dá esperança são as boas pessoas. [...] Pessoas que não fazem esse trabalho por si mesmas, mas para dar voz àqueles que sentem que não conseguem falar".

"Enquanto houver pessoas assim no mundo, eu vou continuar acreditando que um dia nós seremos mais numerosos, mais visíveis e mais fortes do que aqueles que escolhem espalhar discriminação e ódio. [...] Estar aqui, no Brasil, participando de uma conferência ao lado da comunidade que represento já me dá esperança. Tenho muito orgulho de representar essa comunidade", concluiu.

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Por Luiz Eugênio de Castro | Reality show, redes sociais e TV
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