Sabe quando você se prepara para organizar uma festa, para uma entrevista, apresentação e vem o pensamento: “E se der errado?”. Saiba que esse tipo de pensamento não é um puro pessimismo, é mais profundo do que se imagina.
Na psicologia, porém, existe um conceito que ajuda a explicar outra possibilidade: o pessimismo defensivo. A estratégia é pesquisada há décadas pela psicóloga Julie Norem e envolve estabelecer expectativas relativamente baixas e imaginar, antes de uma situação importante, quais problemas podem acontecer.
A ideia não é simplesmente esperar o pior, mas transformar ansiedade em cenários concretos que possam ser enfrentados com algum tipo de preparação.
E é justamente essa lógica que ajuda a entender uma situação recente de 'Quem Ama Cuida', novela das nove da Globo.
Silvana (Belize Pombal) decidiu comemorar o aniversário em casa e fez uma escolha delicada ao convidar Pilar (Isabel Teixeira), sua cunhada. As duas não têm uma boa relação, mas a professora universitária preferiu relevar as diferenças, mesmo apostando que algo poderia dar errado.
No meio da festa, Pilar acaba entrando em conflito com a própria filha, Brigitte (Tatá Werneck), em uma cena que virou assunto por vários dias.
A situação mostra como, em determinados contextos, imaginar previamente que alguma coisa pode dar errado não significa necessariamente desejar que aquilo aconteça. Pelo contrário: reconhecer a possibilidade de um conflito pode fazer parte da tentativa de se preparar emocionalmente para ele.
Segundo a abordagem estudada por Norem, pessoas que utilizam essa estratégia costumam antecipar resultados negativos antes de uma tarefa ou acontecimento importante.
Mas pesquisas sobre o tema encontraram um resultado interessante: o pessimismo defensivo pode funcionar para algumas pessoas justamente porque combina antecipação de problemas com preparação.
Em um estudo publicado no periódico Personality and Social Psychology Bulletin, pesquisadores compararam pessoas consideradas otimistas e pessimistas defensivas.
O detalhe importante é que o efeito mudava quando essas pessoas eram induzidas a relaxar antes da tarefa. Nesse contexto, seu desempenho podia piorar. Já entre os participantes mais otimistas, o padrão era diferente: o relaxamento combinava melhor com a estratégia que eles naturalmente utilizavam.
Ou seja, não existe necessariamente uma única maneira correta de se preparar para uma situação importante. É por isso que frases como 'relaxa, tudo vai ficar bem podem não funcionar da mesma maneira para todas as pessoas.
Para quem utiliza o pessimismo defensivo, imaginar dificuldades pode ser justamente uma forma de recuperar a sensação de controle.
Se existe a possibilidade de chover, a pessoa leva um guarda-chuva, se tem medo de esquecer alguma coisa, faz uma lista, se prevê trânsito, sai mais cedo ou se teme que uma apresentação tenha problemas técnicos, testa o equipamento antes.
No fim, pensar no pior não precisa significar viver esperando uma tragédia. Para algumas pessoas, pode ser justamente uma maneira de se sentir preparadas para quando a vida não sair exatamente como planejado.