Ramiro Calle, pioneiro do yoga na Espanha e um dos maiores especialistas do mundo, afirma que a atenção que praticamos com o yoga afeta positivamente a neuroplasticidade do nosso cérebro.
O cérebro responde ao treinamento de forma muito semelhante à dos nossos músculos e, o mais interessante, nas condições adequadas, o cérebro adulto pode formar novas conexões ao longo de toda a sua vida. Ou seja, o mito de “eu sou assim e não posso mudar” é falso. Mas o primeiro passo é ousarmos mudar.
Resumindo o pensamento exposto por Calle no podcast “Estoicismo en español”, “somente quem ousa se transformar pode descobrir do que é capaz”. Nessa descoberta interior, “há uma felicidade que ninguém pode nos roubar. Essa paz interior que surge dentro de nós mesmos”, afirma.
Os estoicos diziam, e Calle explicava, que tudo é contingente. “Tudo está fluindo, tudo passa, nada permanece. Mas, à medida que alcançamos a paz interior e aprendemos a estar em nosso lar interior, também aprendemos a relativizar mais e a ser mais equânimes. Não nos deixamos afetar tanto pelas condicionantes externas e todo o exterior muda”, afirma.
Mas é preciso mais do que apenas querer para alcançá-la. Segundo o iogue, “a paz interior é conquistada, não surge do nada. O desenvolvimento, a evolução… é preciso conquistá-los. Não vêm de graça”.
O problema de uma verdadeira transformação pessoal acontecer ou não está no quão profundamente mergulhamos em nós mesmos para alcançá-la.
Calle insiste que nossos propósitos fracassam por causa de nossa própria mente. “Não mudamos porque tudo se passa no palco da mente, mas não somos capazes de assimilar isso para realmente dar o grande salto”, explica. Pensamos nisso e estabelecemos metas, mas não as colocamos em prática de forma ativa.
“Sem uma mudança no ser, as intenções ficam na superfície”, adverte. Sem esforço, não há mudança possível, segundo o especialista, porque “é o esforço que fortalece a vontade, e isso é evolução, uma energia poderosa para agir”. Esse seria o primeiro dos pilares para uma transformação real.
O segundo é a atenção, entendida como a capacidade de estar presente e alerta em todo momento e circunstância. Mas não uma atenção tensa, e sim uma atenção serena, que inspira e não desgasta, segundo o especialista.
Essa atenção nos ajuda a discernir o profundo do superficial, segundo o especialista. “A atenção vivifica, eleva a consciência e a intensifica, mas ao mesmo tempo a amplia e nos permite fazer tudo de maneira mais diligente e também mais cuidadosa”, afirma.
O problema é que “colocamos nossa ênfase no trivial e no secundário e, assim, desperdiçamos nossas melhores energias e nos tornamos cada vez mais mecânicos e automatizados”, afirmava o especialista, acrescentando que “é mais fácil fazer tudo de forma mecânica do que com atenção”, por isso é preciso tentar romper com esse piloto automático, segundo Calle, pois, ao fazê-lo, conseguiremos não apenas desenvolver nossa atenção, mas também aumentar nosso bem-estar.
Para aprender a desenvolver a atenção, Calle recomenda dedicar alguns minutos por dia à autorreflexão. “Verificar se hoje cumpri meus objetivos de desenvolvimento interior, se fracassei nessa busca, se me deixei levar pela inveja, pelo ciúme ou pelo ódio, ou se consegui enfraquecê-los aos poucos”, afirma.
Esse momento de reflexão não serve para nos culparmos se não tivermos conseguido, mas para tomarmos consciência e irmos trabalhando, aos poucos, a atenção. “Assim, na vida cotidiana, estaremos mais atentos, mais alertas e mais perceptivos”, explica.
Encare isso como mais um passo da sua rotina de sono e inclua esse hábito de escrever no final do dia. É melhor escrever à mão em um papel, pois estudos mostram que isso estimula o pensamento divergente, o que pode nos ajudar a encontrar soluções.
Além disso, escrever nos proporciona clareza mental e nos ajuda a reorganizar a experiência emocional, reduzindo a ruminação. Leva apenas alguns minutos antes de se deitar e ajuda a garantir que essas metas não fiquem apenas no papel, para que realmente ocorra uma transformação em você.
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