Jennifer Lawrence já protagonizou cenas de ação, ganhou um Oscar e virou uma das maiores estrelas de Hollywood! Mas uma das histórias mais inusitadas de sua carreira aconteceu longe das telas e envolveu - acreditem se quiser - uma coceira, uma roupa de neoprene e pedras consideradas sagradas no Havaí. Ok, vamos aos detalhes...
O episódio ocorreu há cerca de 14 anos, durante as filmagens de "Jogos Vorazes: Em Chamas", mas só ganhou uma grande repercussão pública em dezembro de 2016, quando a atriz decidiu contá-lo em uma entrevista.
Na época, Lawrence tinha 26 anos e estava promovendo "Passageiros", ficção científica protagonizada ao lado de Chris Pratt. Durante sua participação no programa britânico The Graham Norton Show, exibido pela BBC, ela relembrou o que havia acontecido durante as gravações de "Jogos Vorazes" no Havaí. A história inicialmente arrancou risadas da plateia. Depois, porém, provocou críticas nas redes sociais e levou a atriz a publicar um pedido de desculpas. Vish!
Ao relembrar as filmagens, Jennifer Lawrence explicou que a produção havia passado por lugares que, segundo ela, tinham grande importância para os havaianos. “Havia pedras sagradas - não sei, elas eram ancestrais, quem sabe - eram sagradas”, afirmou a atriz no programa.
Na sequência, ela explicou que havia uma orientação para que ninguém se sentasse sobre aquelas pedras. “Você não deve se sentar nelas, porque não deve expor seus órgãos genitais a elas”, disse.
O problema - ou, pelo menos, o começo da história que posteriormente se transformaria em polêmica - é que Lawrence estava usando uma roupa de neoprene durante as gravações.
“Eu, no entanto, estava usando uma roupa de neoprene durante toda a gravação - meu Deus, elas eram ótimas para coçar o bumbum!”, contou, arrancando risadas da plateia. A atriz então passou a usar uma das pedras para aliviar a coceira.
Lawrence também contou que uma das pedras em que estava se apoiando acabou se soltando. Ela descreveu o objeto como uma grande rocha que rolou pela montanha. “Uma das pedras em que eu estava coçando o bumbum acabou se soltando”, afirmou.
Segundo o relato da atriz, a pedra desceu pela montanha e quase atingiu o responsável pelo som da produção. Socorro! “Era uma pedra enorme e rolou montanha abaixo, quase matando nosso técnico de som”, acrescentou Lawrence. Ela acrescentou que toda a estação de trabalho do profissional acabou destruída.
Na entrevista, Lawrence continuou contando o episódio em tom de brincadeira. Segundo ela, os havaianos que estavam no local teriam interpretado o desprendimento da pedra como uma espécie de sinal. “Meu Deus, é a maldição!”, teriam dito, de acordo com a atriz. Lawrence, então, contou que ficou em um canto pensando: “Eu sou a sua maldição. Eu a soltei com a minha bunda".
O tom descontraído funcionou diante da plateia do programa. Na internet, entretanto, a recepção foi completamente diferente...
Para entender a reação, também é preciso compreender que a relação dos povos nativos havaianos com determinados lugares e elementos da paisagem vai muito além da ideia de uma formação rochosa como simples objeto da natureza!
O National Park Service (NPS) explica que a sociedade havaiana tradicional era organizada por um sistema conhecido como kapu, no qual determinadas pessoas, lugares, objetos e períodos eram considerados sagrados ou proibidos. Essas regras alcançavam diferentes aspectos da vida social e da relação com os recursos naturais.
Em locais históricos preservados pelo governo norte-americano, estruturas de pedra podem estar ligadas a templos, chefes, cerimônias e áreas consideradas sagradas.
No Puʻukoholā Heiau National Historic Site, por exemplo, o NPS explica que aquilo que para um visitante pode parecer apenas uma série de pedras é, na realidade, parte de um importante sítio da história havaiana. A agência também registra que a área sagrada do templo era restrita, no passado, a chefes e sacerdotes.
Outro exemplo é o Puʻuhonua o Hōnaunau, um importante complexo cerimonial havaiano que preserva estruturas religiosas e históricas. O NPS explica que, dentro do antigo sistema kapu, determinados lugares e objetos eram considerados sagrados e que romper essas regras poderia trazer consequências graves.
Quando o trecho do programa começou a circular, usuários nas redes sociais passaram a questionar a forma como Lawrence tratou o episódio.
A BBC relatou a repercussão e reproduziu comentários de pessoas que consideraram a atitude desrespeitosa. Uma das pessoas identificadas pela emissora como Marcia Ogasawara, do Havaí, afirmou que não teria se incomodado com a história caso a atriz não tivesse destacado o caráter sagrado das pedras. O problema, segundo ela, era a forma como Lawrence tratou algo construído pelos nativos havaianos para uma finalidade significativa.
Outro comentário reproduzido pela BBC veio de Arghya Ghosh, que questionou justamente a diferença de perspectiva cultural e afirmou que destruir um local histórico ou cultural poderia ser considerado algo grave.
O The Guardian também acompanhou a reação e publicou, em 9 de dezembro de 2016, um artigo de opinião assinado por J. Kēhaulani Kauanui, professora de antropologia, intitulado “Jennifer Lawrence, please keep your butt off our ancestors [Jennifer Lawrence, por favor mantenha a bunda longe dos nossos ancestrais]”. O texto criticou a maneira como a atriz tratou o episódio e discutiu o significado cultural das pedras para os havaianos.
Diante da repercussão, a atriz decidiu se pronunciar. Em 9 de dezembro de 2016, Lawrence publicou uma mensagem no Facebook começando com: “Da Jen para a internet”.
“Eu não quis, de forma alguma, desrespeitar o povo havaiano. Eu realmente achei que estava fazendo uma piada autodepreciativa sobre o fato de eu ser ‘a maldição’, mas entendo que a maneira como isso foi percebido não foi engraçada e peço desculpas se ofendi alguém”, escreveu ela.
A expressão usada por Lawrence também chamou atenção porque existe no Havaí uma conhecida crença popular relacionada a Pele, divindade tradicional associada aos vulcões.
O The Guardian explicou, na cobertura da época, que retirar areia preta ou rochas de lava do Havaí é associado à chamada “maldição de Pele”, uma crença segundo a qual levar elementos naturais da ilha poderia trazer má sorte. Mas é importante não confundir essa lenda popular com toda a dimensão espiritual da cultura havaiana. A relação dos nativos havaianos com a terra envolve conceitos e tradições muito mais amplos!