Martha Nussbaum, filósofa: 'Para ser uma boa pessoa, confie nas coisas incertas que estão fora do seu controle'
Publicado em 18 de março de 2026 às 16:44
Por Matheus Queiroz | Notícias dos famosos, TV e reality show
Jornalista por vocação, apaixonado por música, colecionador de CDs e neto perdido de Rita Lee.
Martha Nussbaum foi premiada por ser uma das filósofas morais mais influentes e por se opor às ideias do estoicismo.
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Martha Nussbaum nasceu em Nova York em 1947 e lecionou em universidades como Harvard, Brown e a Universidade de Chicago. Em 2012, ela ganhou o Prêmio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais, e seus estudos parecem cada vez mais relevantes para entendermos nosso tempo. Comecemos com esta citação: "Para ser uma boa pessoa, confie nas coisas incertas que estão além do seu controle."

Em seu livro "A Fragilidade da Bondade", a filósofa discute vulnerabilidade, relacionamentos e a natureza essencial de aceitar os riscos inerentes à vida se realmente desejamos uma vida boa e sermos boas pessoas. Em um dos primeiros capítulos do livro, ela desmonta a noção de que uma vida boa é aquela em que nossas emoções estão sob controle.

Isso contrasta com o estoicismo de autores como Epicteto, que argumentava que uma vida boa depende unicamente de você e da sua vida interior, e que tudo o que é externo deveria ser irrelevante. Nussbaum sustenta que, embora eles não estejam totalmente errados, é completamente irrealista pensar que fatores externos não nos afetam simplesmente porque as emoções são incontroláveis. Ao remover a vulnerabilidade da equação da vida, tudo o que conseguimos é torná-la insípida e empobrecida. 

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PRECISAMOS SER VULNERÁVEIS PARA UMA VIDA PLENA

Ser um bom ser humano é ter uma certa abertura para o mundo, uma capacidade de confiar em coisas incertas que estão além do seu controle, o que pode levar à devastação em circunstâncias extremas pelas quais você não é responsável.

Isso diz algo muito importante sobre a condição da vida ética: que ela se baseia na confiança no incerto e na disposição de se expor; baseia-se em ser mais como uma planta do que uma joia, algo bastante frágil, mas cuja beleza particular é inseparável dessa fragilidade.

Nussbaum explica que uma boa vida implica, de certa forma, uma certa dependência, pois, como seres humanos, não somos autossuficientes nem podemos ser 100% independentes. Parafraseando o texto, poderíamos dizer que “a fragilidade não é uma falha do sistema. É o preço de uma vida que realmente importa”, porque não há beleza sem risco. A coisa mais valiosa em sua vida é também aquilo que pode destruí-lo.

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Se considerarmos o que Harvard afirma ser a chave da felicidade, os relacionamentos, podemos perceber que conquistá-los exige conexão com os outros, e isso envolve vulnerabilidade. Toda vez que você ama, pode perder. Toda vez que você confia, pode ser traído. Toda vez que você se conecta, pode sofrer. Mas isso não é um erro a ser evitado; pelo contrário, faz parte da vida. Da boa vida, segundo Nussbaum.

“As coisas que nos tornam mais vulneráveis ​​são as que mais importam para nós”, afirmou ela em outro de seus livros, “Paisagens do Pensamento”, no qual explora como as emoções se tornam respostas que nos ajudam a distinguir o que é valioso e importante do que não é.

A renomada psicóloga Brené Brown afirma que o verdadeiro sentimento de pertencimento e conexão não surge quando aparentamos força, mas sim quando demonstramos que precisamos dos outros — ou seja, quando somos vulneráveis. Essa teoria psicológica é muito semelhante à que Nussbaum apresentou em um nível filosófico. Para ela, viver bem não significa se proteger do dano, mas sim aceitar o risco de ser ferido.

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Você pode fazer tudo certo na vida e com as pessoas ao seu redor e ainda assim sofrer profundamente, porque aquilo que está além do nosso controle também nos afeta. E não se pode ter relacionamentos profundos sem correr riscos emocionais.

"Amar é reconhecer nossa própria necessidade e vulnerabilidade", afirmou a filósofa. E não vale a pena desistir disso, mesmo que haja o risco de se machucar, porque, como ela explicou em uma entrevista à revista Time, "existem muitos tipos de amor, e nunca podemos ter amor demais".

“Devemos mostrar nossa vulnerabilidade. Precisamos dos outros”, afirma ela, porque, segundo sua filosofia, quanto mais plena a vida, mais vulnerável a pessoa se torna. Para Nussbaum, uma vida autêntica é como uma planta que precisa de cuidados externos e pode ser danificada. Mas é justamente nessa fragilidade que reside sua verdadeira beleza.

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