A psicologia desmascara o mito e o confirma: as crianças dos anos 60 e 70 não eram mais fortes por causa da educação que recebiam, mas sim devido ao abandono cotidiano que viviam
Publicado em 11 de maio de 2026 às 20:55
Segundo os pesquisadores, menos liberdade e o excesso de atividades planejadas têm reduzido a autonomia e a resiliência das crianças em 2026
A psicologia desmascara o mito e o confirma: as crianças dos anos 60 e 70 não eram mais fortes por causa da educação que recebiam, mas sim devido ao abandono cotidiano que viviam Psicólogos explicam que a suposta 'força' das crianças dos anos 60 e 70 pode ter sido resultado de uma infância com mais liberdade, tédio e menos supervisão constante dos adultos, e não necessariamente de uma educação melhor Segundo o OK Diario, estudos recentes indicam que o tempo livre e as brincadeiras sem interferência dos pais ajudavam crianças das décadas de 1960 e 1970 a desenvolver criatividade, autonomia e maior tolerância à frustração. A psicologia faz um alerta: o objetivo não é repetir o abandono comum nas décadas de 1960 e 1970, mas permitir que as crianças enfrentem desafios adequados à idade para desenvolver confiança, criatividade e equilíbrio emocional. Na imagem, a apresentadora Xuxa Meneghel aparece aos 9 anos, em 1972. Nascida em 1963, ela atravessou justamente esse período marcado por mais liberdade na infância e, em 2026, celebra 63 anos de idade Um metanálise com 52 pesquisas, conduzido por Qi Zhang, da Universidade de Wisconsin-Madison, e Wongeun Ji, da Universidade Global de Handong, encontrou associações consistentes entre superproteção parental e níveis mais altos de ansiedade e depressão na vida adulta

Quem cresceu nas décadas de 1960 e 1970 costuma ouvir que as crianças daquela época eram mais fortes, independentes e preparadas para enfrentar a vida. Mas, segundo especialistas em psicologia, essa resistência emocional não estava necessariamente ligada a uma educação melhor. Na prática, ela pode ter sido consequência de uma infância marcada por mais liberdade, tédio e, em muitos casos, menos supervisão dos adultos.

De acordo com o OK Diario, a ciência tem revisitado esse tema e mostrado que a autonomia desenvolvida por muitas crianças do passado estava diretamente relacionada ao fato de elas precisarem resolver problemas sozinhas no dia a dia.

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Nos anos 60 e 70, era comum que as crianças passassem longos períodos brincando sem a presença constante dos pais. Não havia celulares, tablets ou uma programação intensa de atividades. O tempo livre, o tédio e a imaginação caminhavam juntos.

Segundo psicólogos, esse cenário favorecia o desenvolvimento da criatividade, do pensamento próprio e da capacidade de lidar com frustrações. Em vez de receber soluções prontas, os pequenos precisavam inventar brincadeiras, negociar conflitos e encontrar respostas por conta própria.

A superproteção pode ter efeito contrário

Um novo metanálise reuniu os resultados de 52 pesquisas para investigar os efeitos da chamada "infância moderna", marcada pelo controle excessivo dos pais. Os pesquisadores Qi Zhang, da Universidade de Wisconsin-Madison, e Wongeun Ji, da Universidade Global de Handong, identificaram associações consistentes entre a superproteção parental e níveis mais altos de ansiedade e depressão na vida adulta.

A maioria dos participantes avaliados tinha em torno de 20 anos, e os resultados se repetiram em diferentes contextos culturais e econômicos. Isso sugere que o fenômeno não está restrito a um único país ou grupo social.

Participar não é o mesmo que controlar

Os especialistas ressaltam que cuidar dos filhos e estar presente é fundamental. O problema surge quando os adultos intervêm em todas as situações, inclusive nas menores dificuldades, como discussões entre amigos, tarefas escolares ou decisões esportivas.

Uma revisão sistemática liderada por Stine L. Vigdal, em 2022, também apontou relação entre superproteção, ansiedade e depressão, embora os pesquisadores alertem que ainda não é possível determinar com precisão o que é causa e o que é consequência.

O papel da autorregulação emocional

Para o especialista Marc Brackett, do Centro de Inteligência Emocional de Yale, a autorregulação é uma das habilidades mais importantes para o desenvolvimento infantil. Trata-se da capacidade de administrar emoções e comportamentos sem depender constantemente de outras pessoas.

Segundo ele, essa competência é construída justamente em experiências imperfeitas, quando a criança enfrenta pequenos desconfortos, erros e frustrações.

O poder do brincar livre e até do tédio

Pesquisas conduzidas por Yeshe Colliver com mais de 2.200 crianças australianas mostraram que o tempo dedicado ao jogo não estruturado na pré-escola está associado a uma melhor autorregulação anos depois.

O chamado "jogo arriscado", estudado por Mariana Brussoni, também pode trazer benefícios, embora os cientistas afirmem que ainda são necessárias mais evidências.

E há um ponto que pode surpreender muitos pais: o tédio não é um inimigo. Ao contrário, aquele clássico "o que eu faço agora?" estimula a criatividade, o pensamento simbólico e a busca por soluções próprias.

A psicologia faz um alerta aos pais de hoje

Os especialistas deixam claro que a conclusão não é abandonar as crianças, como acontecia com frequência no passado. A recomendação é oferecer oportunidades adequadas à idade para que elas tomem decisões, enfrentem frustrações e desenvolvam autonomia.

Em outras palavras, a chamada "força" das crianças dos anos 60 e 70 não surgiu de uma criação perfeita, mas da necessidade de lidar com desafios cotidianos sem intervenção constante. E, segundo a psicologia, é justamente nesse equilíbrio entre cuidado e liberdade que a resiliência começa a ser construída.

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Por Pedro Henrique Cabo | Colaborador
Geek fashionista que canta 'Let It Go' no chuveiro, trata 'O Diabo Veste Prada' como religião e escolheu Piplup como seu inicial. Jornalista metido a designer, cinéfilo de Letterboxd e amante das artes.
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