Existe uma percepção comum de que muitas pessoas que cresceram entre as décadas de 60 e 70 se tornaram frias, duras ou pouco afetivas por escolha. Mas a psicologia propõe que o comportamento rígido é uma consequência da adaptação ao ambiente em que essas pessoas foram criadas.
Muitos filhos de pessoas nascidas nessa geração contestam o fato de raramente ouvir 'eu te amo'. São aqueles que não conseguem falar 'Tenho orgulho de você', mas seriam capazes de atravessar uma cidade para ajudar em um momento difícil. O amor existe, mas não foi aprendido na linguagem das palavras.
Nas décadas de 60 e 70, não havia uma série de recursos que poderiam ajudar a minimizar as dúvidas e dores. Internet, conteúdos sobre inteligência emocional ou aplicativos de terapia poderia agregar na educação.
A criação vinha da repetição de padrões, muitas vezes rígidos, onde sentimentos não eram discutidos, e sim, eram contidos. Logo, resolver as próprias dores em silêncio era visto como força, não como ausência de apoio.
E há um ponto curioso nisso tudo: o que hoje identificamos como possíveis respostas ao trauma já foi, por muito tempo, interpretado como virtude. A criança que não reclamava não era vista como reprimida, mas como grata.
O adolescente que abria mão do lazer para trabalhar era considerado responsável. Ninguém perguntava 'como você se sente?', e isso não era visto como falha, mas como parte da vida.
Assim, toda uma geração cresceu confundindo mecanismos de defesa com qualidades. Portanto, não demonstrar fragilidade era sinônimo de caráter, assim como não depender emocionalmente dos outros era sinal de força.
E, pouco a pouco, isso foi moldando adultos extremamente resilientes e capazes de enfrentar perdas, crises financeiras, rupturas familiares e dores profundas com uma firmeza que impressiona até hoje.
Mas essa força teve um custo. Ao mesmo tempo em que aprenderam a suportar quase tudo, muitos não aprenderam a expressar. O mesmo adulto que enfrenta um funeral sem chorar pode ter dificuldade em comemorar uma conquista sem sentir culpa. .
Um exemplo que ilustra esse tipo de personalidade forte, direta e, por vezes, dura, é o da atriz Solange Couto, nascida em 1956, eternizada como Dona Jura em 'O Clone'.
Recentemente, ela viveu uma participação polêmica no 'BBB 26', cujas falas eram um tanto quanto tanto agressivas, como afirmar que determinada participoante não poderia ser uma boa mãe, caso tivesse filhos, ou que essa mesma pessoa nasceu de um sexo mal feito.
Nada disso diminui seu talento ou sua trajetória admirada pelo público, mas revela traços de uma geração que aprendeu a se proteger antes de se expor, muitas vezes confundindo sinceridade com dureza.
No fundo, essa geração não escolheu ser assim, da mesma forma que ninguém escolhe a cor dos olhos. Foi uma resposta ao mundo que tinham: mais duro, silencioso emocionalmente e com menos ferramentas para lidar com sentimentos.