Há exatos 22 anos, um dos momentos mais controversos da história da televisão mundial acontecia diante de mais de 140 milhões de espectadores. Durante o show do intervalo do Super Bowl XXXVIII, em 1º de fevereiro de 2004, Janet Jackson teve o seio direito exposto por cerca de meio segundo após Justin Timberlake puxar parte de seu figurino no encerramento da apresentação!
O episódio entrou para a cultura pop como “Nipplegate” e mudou, para sempre, a trajetória profissional dos dois artistas... sobretudo a dela. Mais de duas décadas depois, o momento caótico segue sendo revisitado, reinterpretado e debatido, inclusive à luz de novas falas que revelam bastidores pouco conhecidos, como o conselho direto e surpreendente que Janet deu a Justin logo após o escândalo.
O show do intervalo do Super Bowl XXXVIII foi transmitido ao vivo pela CBS, direto de Houston, nos Estados Unidos, e produzido pela MTV. Janet Jackson cantava um medley de seus vários sucessos quando Justin Timberlake surgiu como convidado especial para dividir os vocais em “Rock Your Body”.
No verso final da música - “I’m gonna have you naked by the end of this song” (“Vou deixar você nua até o fim desta canção”) - Timberlake puxou parte do figurino de Janet, expondo o seio da cantora, que estava adornado com um piercing. A imagem foi ao ar por menos de um segundo, mas suficiente para causar uma reação em cadeia sem precedentes...
O incidente foi classificado inicialmente como um “acidente de figurino” e gerou imediata repercussão midiática, debates sobre moralidade, censura e liberdade de expressão, além de consequências jurídicas para a emissora.
A Federal Communications Commission (FCC), órgão regulador das comunicações nos Estados Unidos, multou a CBS em US$ 550 mil por indecência. Embora a multa tenha sido posteriormente anulada após uma longa disputa judicial, o estrago à imagem de Janet Jackson já estava feito.
A cantora passou a ser boicotada por emissoras de rádio, canais musicais e grandes eventos da indústria. A NFL, por sua vez, anunciou que a MTV não produziria mais shows do intervalo do Super Bowl. Já Justin Timberlake, apesar de envolvido diretamente na cena, seguiu sua carreira praticamente ileso, lançando discos de sucesso e consolidando-se como um dos maiores nomes do pop mundial nos anos seguintes.
Em entrevista revelada anos depois, Janet Jackson contou que, logo após o escândalo, aconselhou Justin Timberlake a não se pronunciar publicamente sobre o caso. Segundo a artista, o clima era de caça às bruxas e o alvo principal era ela.
No documentário "Janet" (2022), em uma conversa com o irmão Randy, ela expressou sobre o papo com o "príncipe" do pop (só ganhou esse título pelo romance com a princesa do pop, Britney, convenhamos).
“Conversamos uma vez e ele disse ‘Não sei se devo sair e fazer uma declaração.’ E eu disse: ‘Ouça… eu não quero nenhum drama para você, eles estão mirando tudo isso em mim.’ Então eu disse: ‘Se eu fosse você, não diria nada’,” contou, ao explicar que sentia que qualquer manifestação pública só ampliaria o impacto negativo, especialmente para ela.
A cantora também deixou claro que, desde o início, percebeu que a narrativa estava sendo construída de forma desigual, colocando sobre seus ombros a maior parte da responsabilidade e da punição.
Timberlake chegou a pedir desculpas de forma breve à época, afirmando que o ocorrido havia sido um acidente. No entanto, sua postura foi vista como insuficiente por parte da opinião pública anos depois, especialmente após o lançamento do documentário "Framing Britney Spears" (2021), que levantou novos debates sobre misoginia, machismo e o tratamento dado a mulheres na indústria do entretenimento.
Somente em 2021, quase 17 anos após o Super Bowl, Justin publicou uma nota pública pedindo desculpas tanto a Janet Jackson quanto a Britney Spears. "Eu quero pedir desculpas especificamente a Britney Spears e Janet Jackson individualmente, porque eu me importo com essas mulheres e as respeito, e sei que falhei", escreveu, na ocasião.
"Eu lamento profundamente pelas vezes na minha vida em que minhas ações contribuíram para o problema, quando falei demais ou quando não falei pelo que era certo. Eu entendo que fiquei aquém nesses momentos, e em muitos outros, e me beneficiei de um sistema conivente com misoginia e racismo", acrescentou à nota.
Janet, por sua vez, optou por não alimentar polêmicas. Em entrevistas ao longo dos anos, manteve a versão de que o episódio foi um acidente e criticou a desproporção da reação.
Em bate-papo com Robert Tannenbaum da "Blender", Jackson descreveu a reação das pessoas como "hipócrita" e garantiu que existiam coisas "mais importantes para se concentrar do que a parte do corpo de uma mulher, que é uma coisa linda". "Há guerra, fome, pobreza, AIDS", expressou. "Foi um acidente. Não foi um golpe. Foi vergonhoso para mim ver todas aquelas pessoas vendo o meu seio", acrescentou.
Já à revista Glamour, a artista declarou: "É difícil acreditar que há uma guerra e pobreza acontecendo no mundo, e ainda assim as pessoas fazem tal grande coisa sobre um seio. As pessoas disseram que isso foi feito intencionalmente para vender discos. Quer saber? Eu nunca fiz um golpe. Porque você faria isso com seu álbum sendo lançado dois meses depois? Não faz sentido".
O “Nipplegate” não apenas marcou a carreira de Janet Jackson, como também alterou os rumos da televisão ao vivo. Após o episódio, transmissões passaram a adotar atrasos técnicos para evitar cenas consideradas indecentes, e a FCC endureceu suas regras e valores de multa.
O momento também entrou para a história da internet: Janet Jackson tornou-se o nome mais buscado da web naquele período, e o escândalo é frequentemente citado como um dos fatores que impulsionaram a criação do YouTube, segundo declarou Jawed Karim, um dos fundadores da plataforma.