Nos anos 90, o Brasil parou diante de uma pergunta que poucos ousavam fazer em voz alta, mas muitos cochichavam: “Será que Milton Nascimento está com AIDS?”. O cantor, então com 54 anos, havia emagrecido subitamente, e sua aparência em um episódio do humorístico "Sai de Baixo", exibido pela Globo, bastou para acender o pavio do moralismo travestido de curiosidade médica.
Naquele tempo, o país ainda engatinhava na compreensão do HIV. Ser magro, pálido ou “diferente” bastava para ser colocado sob suspeita pública. E o ídolo da MPB, dono de uma voz mítica e de uma imagem discreta, virou o alvo perfeito.
No dia 15 de março de 1997, a Folha de S.Paulo estampou: “Milton Nascimento deixa hospital no Rio”. A reportagem, assinada por Fernanda da Escóssia e Mário Moreira, informava que o músico havia ficado internado por dez dias na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, após uma “descompensação metabólica aguda” causada por diabetes tipo 2.
O quadro, já grave por si só, foi piorado por anorexia nervosa, responsável pela perda de apetite e pelo emagrecimento repentino. Na ocasião, o endocrinologista Aílson Soares Gomes foi taxativo: “O que o Milton tem é diabetes e anorexia. Qualquer coisa fora disso é pura especulação". Ele explicou que o artista apresentava perda de apetite e perda de peso, mas que “todos os exames de AIDS deram negativo”.
Após dez dias de internação, Milton recebeu alta e iniciou um processo de recuperação com acompanhamento médico, dieta específica e caminhadas diárias. Voltou para casa, no Itanhangá, mantendo total discrição sobre o episódio.
Mesmo com a confirmação médica, os rumores persistiram. Em 28 de maio de 1997, uma nova reportagem da Folha, assinada por Luiz Antônio Ryff, apresentou um atestado médico do norte-americano Steve Lamm, confirmando o diagnóstico e afastando definitivamente qualquer suspeita de infecção. “Antes da AIDS, já existiam doenças que fazem emagrecer, como o diabetes. É uma distorção achar que quem emagrece muito está com AIDS”, reforçou Aílson.
Vinte e oito anos depois daquele susto, Milton Nascimento enfrenta outro desafio de saúde. Em 2025, seu filho Augusto Nascimento revelou em entrevista à revista Piauí que o cantor foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy, doença degenerativa que afeta memória, movimentos e comportamento.
Segundo Augusto, Milton vive atualmente no Rio de Janeiro, com acompanhamento médico constante e uma equipe de enfermagem 24 horas. Ele se comunica com dificuldade, mas segue cercado de afeto do público, da família e de amigos como Márcio Borges, parceiro de vida e de música no Clube da Esquina.
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