A nossa memória é colocada à prova em todos os momentos, durante o dia. Quem nunca esqueceu o nome de alguém, ou de alguma informação importante? De acordo com o neurocientista Rodrigo Quian Quiroga, foi surpreendente descobrir que lembramos pouco das coisas:
"Uma das primeiras coisas que me surpreendeu quando comecei a me interessar por neurociência foi o quão pouco nos lembramos", explicou ao periódico El País. Questões ligadas ao esquecimento e à perda de memória são constantemente exploradas nas novelas da Globo, tanto em diálogos dentro de casa.
Ele complementou: "Nossa memória se baseia em lembrar muito pouca informação e construir algo a partir disso. É por isso que temos falsas memórias", ressalta. Cada vez mais nos deparamos com esquecimentos, e problemas de memória, tanto nossos, como de pessoas conhecidas vindo à tona.
O próprio especialista cita que estamos construindo uma realidade de pouquíssima informação, ainda que tenhamos várias delas disponíveis na palma da mão, com as redes sociais, por exemplo.
Isso acontece porque a capacidade do cérebro é limitada. Logo, cada um tende a encontrar os neurônios com os dados que lhe interessam, baseados, principalmente, em coisas que marcaram emocionalmente. Essa afirmativa também é levada em consideração por outros especialistas, como Santiago Canals:
"A memória tende a esquecer praticamente tudo, a menos que seja algo único". Outro ponto a ser levado em consideração é a inteligência emocional, que costuma fortalecer os laços entre as pessoas e as emoções.
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Quer um exemplo? Pensa no seu trajeto de ida e volta do trabalho, ou até mesmo da faculdade: geralmente não lembramos de detalhes muito específicos dessas caminhadas. Isso acontece porque não ocorreu nada de muito específico, que tenha despertado uma mudança emocional em nós.
Em contrapartida, caso aconteça algo de extraordinário nesse mesmo caminho, no mesmo horário e com a mesma rotina que você costuma seguir, é claro: nossa memória vai logo guardar, e isso se transformará em lembrança.
Assim, fica fácil de entender que novas situações precisam vir à tona, provocando alguma sensação e emoção em nós (pode ser alegria, surpresa, tristeza, dentre outras), para que o nosso mecanismo complexo responsável pelas conexões do cérebro possa entender, e ir aumentando ou diminuindo a nossa memória, com o passar do tempo.
Já se sabe que a memória muda e evolui com o tempo. Mas, qual o motivo? Bem, o nosso cérebro funciona a partir de estímulos: seja um gosto diferente, ou até mesmo um cheiro de perfume doce ou mais forte, por exemplo, pode fazer com que ele desperte.
Essas espécies de "circuitos sinápticos" é que determinam se as experiências, então, serão positivas ou negativas. Para o neurocientista Canals, "a relação que existe entre uma ação e a obtenção de uma recompensa ou uma punição", citou. Os seres humanos costumam fazer bastante confusão com essas informações.
Se compararmos com o armazenamento de informações em um HD ou pen-drive, seria mais fácil, não acha?! Se compararmos nossa memória a um disco rígido, ficaria bem mais fácil de recuperar as informações, sempre que fosse necessário.
Todos seriam bom em tudo, e de repente, conseguiríamos até respostas para situações ainda desconhecidas, como o Alzheimer: o que pode proteger dessa doença, além de coisas que fazem mal. No entanto, nossa memória é bem mais complexa, e está mudando constantemente. Ela até ajuda a entender o que está a nossa volta.
De acordo com Quiroga, é verdade que precisamos esquecer de algumas coisas. Para ele, a memória é "supervalorizada":
"A chave para o funcionamento da inteligência humana não é o que lembramos, mas o quanto esquecemos".
Sendo assim, ficamos nesse complexo de ter o medo de esquecer das coisas, e ao mesmo tempo, entender que faz parte do processo. Inclusive, compreender que o cérebro é que tem a capacidade de guardar a quantidade exata de informações necessárias para que possamos viver nesse mundo (que vive mudando a todo instante).
A neurociência ainda explica que precisamos "apertar o botão delete" de situações irrelevantes da nossa memória, reiniciá-las e guardar apenas aquilo que é essencial (e realmente precisa ser um exercício diário).
E é isso que separa os seres humanos das máquinas: extraímos apenas aquilo que é essencial e entendemos o abstrato das memórias. Ainda, segundo Quiroga, por este motivo que "a inteligência artificial (IA), ainda está longe de alcançar a inteligência humana".