Em um tempo marcado pela superexposição e pela necessidade constante de validação pública, alguns percursos seguem na contramão do barulho. No Brasil, exemplos recentes chamaram atenção justamente pela discrição com que foram conduzidos...
Virgínia Fonseca, por exemplo, construiu movimentos importantes de sua trajetória sem grandes anúncios prévios: consolidou a marca própria WePink, encerrou um contrato televisivo com o SBT, apareceu em novos espaços da televisão aberta como a Globo e, em silêncio, tornou-se rainha de bateria da Grande Rio no Carnaval de 2026 - um posto que muitos duvidavam que ela ocuparia.
Casos assim dialogam com uma constatação já respaldada pela ciência: guardar objetivos em segredo pode aumentar as chances de realizá-los. É o que aponta uma reportagem publicada pelo portal argentino Infobae, com base em estudos da psicologia e em entrevistas com especialistas.
Todos os anos, milhares de pessoas estabelecem metas pessoais - mudar hábitos, melhorar a saúde, reorganizar a vida profissional. Ainda assim, grande parte desses planos não sai do papel. Segundo o psicanalista Christian Richomme, ouvido pela reportagem, o problema não está apenas na falta de disciplina.
“Fazemos uma lista do que vamos mudar… e a cada ano, ou quase todos, esses propósitos desmoronam já em fevereiro, às vezes até antes”, afirmou. Para ele, a transformação real exige compreensão do comportamento, não apenas decisão: “Não modificamos permanentemente uma conduta porque ‘decidimos’, mas porque entendemos para que ela servia, para proteger ou evitar algo".
Richomme ressalta que avanços graduais tendem a ser mais eficazes. “Um pequeno passo, mas repetido, tem mais impacto do que uma resolução ambiciosa que se abandona. O cérebro gosta da regularidade, não de rupturas bruscas”, disse em entrevista à revista Psychologies, citada pela Infobae.
Além da abordagem clínica, a reportagem destaca pesquisas experimentais. O psicólogo Peter Gollwitzer, da Universidade de Nova York, liderou um estudo que analisou o impacto de compartilhar metas antes de realizá-las. O resultado foi: falar demais pode gerar uma sensação prematura de dever cumprido.
“Uma vez que a pessoa compartilha suas intenções com outros, experimenta um sentimento de satisfação antecipada”, explicou o pesquisador. No experimento, participantes que mantiveram seus objetivos em segredo trabalharam, em média, 45 minutos por tarefa, enquanto aqueles que anunciaram suas metas se dedicaram cerca de 33 minutos.
Mesmo assim, segundo Gollwitzer, “quem guardou silêncio se sentiu mais próximo do objetivo, apesar de trabalhar aproximadamente 25% menos”.
Os benefícios do silêncio não se limitam à produtividade. A psicóloga Lecina Fernández, em texto publicado no blog de psicologia do Colégio Oficial de Psicólogos de Madri, afirma que preservar os objetivos protege a saúde emocional.
Manter metas em segredo, segundo ela, permite “conservar a energia emocional e reduzir o estresse relacionado às opiniões dos outros”. Ao evitar julgamentos externos, comparações e interferências alheias, o indivíduo fortalece o foco interno e passa a depender menos da aprovação social.
A reportagem ressalta que, em um ambiente dominado por redes sociais e estímulos constantes, esse tipo de silêncio exige esforço. “Todos esses ruídos são feitos para atrair as pessoas, seduzi-las, absorvê-las e, assim, criar cada vez mais comportamentos aditivos ao barulho, dificultando o silêncio”, observa Fernández.
Segundo a especialista, o silêncio não é ausência, mas ferramenta de equilíbrio. “O silêncio afeta a vida. É necessário para o nosso interior: para pensar, nos concentrarmos melhor, escutar com atenção, compreender e nos proporcionar paz mental. E é necessário para nos abrirmos: para nos comunicarmos com o nosso coração e com o mundo”, afirmou.
Entre os benefícios apontados estão melhora da concentração, redução da ansiedade, maior clareza mental e relações mais autênticas - resultados que ajudam a explicar por que, em 2026, avançar de forma discreta pode ser uma das estratégias mais eficazes para transformar planos em realidade.