Todo ano, milhões de brasileiros ficam vidrados na tela da TV Globo acompanhando as emoções do "Big Brother Brasil". É torcida, choro, raiva, xingamentos... e, muitas vezes, a sensação de que estamos confinados junto com os brothers e sisters na casa mais vigiada do país!
A narrativa do programa funciona? Funciona. Quando o elenco entrega boas histórias, como alguém passando fezes na parede da Casa de Vidro, fica ainda melhor? Sem dúvida. Mas há algo muito maior por trás dessa identificação coletiva e é uma neurocientista quem ajuda a explicar esse fenômeno.
Daiana Petry, neurocientista e aromaterapeuta, conversou com o Purepeople Brasil em entrevista exclusiva e detalhou o que acontece com a nossa mente quando o assunto é o apego ao "BBB". Segundo ela, a vontade quase incontrolável de não perder nenhum detalhe do reality está ligada a um mecanismo cerebral específico, que “entra em um ciclo de antecipação e recompensa”.
“É o mesmo ciclo envolvido em em hábitos, jogos e narrativas seriadas. A dopamina é ativada não só quando algo acontece, mas quando você espera que algo aconteça. Cada Paredão, briga ou revelação cria micro-picos de excitação neural”, explica a especialista.
“O cérebro passa a tratar o programa como um evento importante do seu dia, algo que precisa ser monitorado para manter a previsibilidade emocional, pois caso contrário, surge a sensação de descontinuidade, como se faltasse um capítulo da própria vida emocional. Quando esse circuito se repete todos os dias, o cérebro começa a priorizar o programa como fonte principal de estimulação emocional”, continua.
Esse processo, segundo Daiana, cria um terreno fértil para o chamado “hiperfoco”. “Atenção estreitada, pensamento recorrente e dificuldade de ‘desligar’ mesmo quando o episódio termina”, descreve.
Pensando nos casos em que esse envolvimento pode gerar ansiedade ou impactar a saúde emocional, a neurocientista também aponta alternativas para ajudar a regular esse estado mental.
“Óleos essenciais com ação moduladora sobre dopamina e ansiedade antecipatória, como limão siciliano, bergamota e patchouli. Inalados pontualmente antes do início do programa ou em momentos de ruminação, eles ajudam o cérebro a sair do modo hiperfoco, ampliando o campo atencional e reduzindo a necessidade compulsiva de estímulo contínuo”, orienta.
Daiana ainda explica que a intensidade emocional do público com o "BBB" está ligada à ativação de três sistemas primitivos do cérebro: pertencimento (grupos), ameaça social (rejeição e exclusão) e empatia (espelhamento emocional).
“Quando há carga emocional, o cérebro não distingue totalmente entre viver e observar. Ao ver alguém ser rejeitado, traído ou exaltado, o sistema límbico reage como se aquilo estivesse acontecendo conosco, ou seja, as áreas cerebrais ativadas são as mesmas, seja na observação ou na vivência real”, relata.
O apego aos participantes também tem nome e explicação científica. Segundo a especialista, trata-se do chamado “vínculo parassocial”. “O cérebro cria laços emocionais com pessoas que ele vê repetidamente em contextos íntimos. Você conhece a história, as fragilidades e os conflitos daquele participante e isso gera a sensação de proximidade. Para o cérebro, ele passa a ocupar um lugar semelhante ao de alguém do convívio real”, pontua.
Por fim, ao ser questionada se o programa apresentado por Tadeu Schmidt funciona como uma espécie de “escape emocional” para o brasileiro, Daiana confirma e amplia a reflexão. “Em tempos de incerteza social, econômica e emocional, o cérebro procura algo fundamental: a previsibilidade e o BBB oferece através de narrativas um começo, meio e fim”, diz.
“O reality oferece também o conflito, a catarse, o julgamento e a resolução semanal e isso organiza simbolicamente o caos. O brasileiro busca entretenimento, porém o comportamento também pode revelar uma população emocionalmente sobrecarregada, buscando alívio para tensões que não conseguem resolver na vida real”, completa.