A morte de Preta Gil, no último domingo (20), aos 50 anos, deixou o Brasil em luto. Filha de Gilberto Gil e símbolo da liberdade de ser quem se é, ela será velada nesta sexta-feira (25) no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em uma data carregada de significado: o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
Uma escolha que dialoga diretamente com o legado que Preta construiu em vida, em sua música, nos palcos e nas páginas de revistas, como a histórica edição da "Trip", publicada em setembro de 2003. Foi nesta entrevista corajosa, em que posou nua e derrubou tabus sobre o corpo e o prazer, que Preta revelou um apelido peculiar que poucos fãs conhecem. Um apelido carinhoso, mas que também escancarava um momento difícil e determinante de sua trajetória.
Durante a conversa com o jornalista Fernando Luna, Preta recordou com franqueza sua fase como publicitária e produtora de sucesso na Dueto, quando ganhava mais dinheiro do que conseguia administrar. Ela contou que chegou a acumular US$ 30 mil em dívidas no cartão de crédito, resultado de uma compulsão por consumo que mascarava um vazio emocional.
Era nesse período que sua amiga e referência, a apresentadora e atriz Regina Casé, começou a chamá-la de “Pretinha de Beverly Hills”, em alusão à comédia adolescente americana "Clueless" (no Brasil, "As Patricinhas de Beverly Hills", 1995), filme que virou ícone de moda e ostentação nos anos 90. “Todo o dinheiro que ganhei, gastei na Daslu!”, brincou Preta, citando a loja de luxo paulistana símbolo de glamour e exclusividade.
Mais do que uma piada entre amigas, o apelido viria a marcar um ponto de virada. “Ganhei muito dinheiro, ajudava meus amigos, minha babá, meu motorista... mas tinha um buraco dentro de mim. Preenchia com compras e comida”, desabafou.
Ao ser perguntada na entrevista por quanto tempo fez terapia, Preta respondeu sem rodeios: “Uns oito anos, com analistas diferentes". E foi justamente após esse longo processo de análise e de autoconhecimento que ela decidiu recomeçar. Largou a estabilidade da vida de produtora, vendeu o apartamento, voltou a morar com a mãe, e deu um salto de fé rumo à carreira artística que sempre sonhou.
“Estou recomeçando”, dizia na época, ao lançar seu primeiro disco, "Prêt-à-Porter", e estrear como atriz na novela global "Agora é que São Elas". Mais do que uma nova fase, era o renascimento de uma mulher que finalmente se via, que se aceitavA, e que não se curvava mais aos padrões.
Preta falava abertamente sobre sexo, vícios, preconceito, religiosidade e afeto. Rompia com tabus de forma tão orgânica quanto política. Era uma artista que entendia o valor do próprio corpo como espaço de resistência, fosse ao posar nua, fosse ao defender o cabelo alisado com raiz crespa, ou ao dizer: “Sou do movimento pró-felicidade”.