“Devo ao futebol tudo o que sei com maior certeza sobre moralidade e as obrigações dos homens.” A frase do filósofo Albert Camus talvez seja uma das melhores reflexões sobre a relação entre esporte e formação humana.
Antes de se tornar um dos grandes nomes da literatura e da filosofia do século XX, Camus também foi jogador de futebol. Durante a juventude na Argélia, então colônia francesa, ele se destacou como goleiro do Racing Universitaire d’Alger.
A posição, inclusive, exigia características que combinavam com a visão de mundo que o escritor desenvolveria mais tarde: atenção, responsabilidade, confiança nos companheiros e disposição para assumir sozinho as consequências de determinados erros.
A carreira esportiva, porém, foi interrompida pela tuberculose. A doença impediu que Camus continuasse jogando profissionalmente, mas não conseguiu afastá-lo do futebol.
Ao falar sobre o esporte, Camus enxergava no campo uma espécie de escola de ética prática. Ali, conceitos como solidariedade, respeito pelo adversário, esforço coletivo, lealdade e responsabilidade deixam de ser palavras abstratas e passam a ser colocados em prática.
Camus também escreveu: “Logo aprendi que a bola nunca vem de onde você espera. Isso me ajudou muito na vida, especialmente nas grandes cidades, onde as pessoas geralmente não são diretas”.
A observação revela outra dimensão de sua relação com o futebol: o jogo é imprevisível. Mesmo quando o atleta acredita ter controle sobre uma situação, a bola pode tomar outro caminho.
É preciso reagir, improvisar, confiar nos próprios instintos e aceitar que nem tudo pode ser planejado... e isso serve para qualquer área da vida, concorda?
O escritor também comparava a emoção do estádio àquela provocada pelo teatro, duas de suas grandes paixões. Para ele, o estádio tinha algo de comunitário: pessoas diferentes se reuniam em torno de uma mesma paixão, compartilhando emoções independentemente de sua posição social.
Não por acaso, Camus chegou a tratar o estádio como uma espécie de igreja que ainda lhe restava. A comparação ajuda a entender o tamanho que o futebol ocupava em sua visão de mundo. Era um lugar de comunhão, espontaneidade e emoção coletiva.
Décadas depois, o italiano Antonio Gramsci também definiria o futebol como 'o domínio da lealdade humana exercida ao ar livre'. A frase reforça que o esporte pode funcionar como um retrato em pequena escala das relações humanas.
É justamente por isso que as palavras de Camus podem ganhar um significado especial quando lembramos de Tufão, personagem de Murilo Benício em 'Avenida Brasil'. O ex-jogador e ex-craque do Flamengo é um dos personagens mais queridos da novela e estará de volta na continuação da trama, prevista para 2027.
Tufão não é um filósofo, evidentemente. Mas sua personalidade dialoga de maneira curiosa com aquilo que Camus enxergava no futebol.
O personagem é essencialmente um homem simples, honesto, generoso e espontâneo. Mesmo depois de conquistar dinheiro e prestígio, não perdeu completamente a ligação com suas origens. Tufão valoriza a família, gosta de estar cercado por pessoas e costuma demonstrar uma maneira leve de encarar a vida.
Sua trajetória também é marcada pela capacidade de confiar nos outros — característica que, ao mesmo tempo em que representa uma de suas maiores virtudes, também o tornou vulnerável às manipulações de Carminha.
É justamente aí que Tufão se aproxima ainda mais da reflexão de Camus. O futebol ensina que confiar nos companheiros é necessário, mas também mostra que a bola pode chegar de onde ninguém espera. Na vida de Tufão, isso acontece o tempo inteiro.